Trato intestinal e gases estrepitosos


O desembargador do Trabalho estava se aposentando e a Turma (no sentido jurisdicional da palavra) resolveu prestar-lhe uma homenagem, após o encerramento da última sessão de julgamentos de que ele participou. Estavam presentes familiares do jubilando, ex-alunos, colegas de magistratura, assessores, estagiários e alguns indefectíveis puxa-sacos.

O já provecto magistrado fez os agradecimentos protocolares, evocou dificuldades e sucessos na carreira e disse que contaria o caso mais curioso que julgara em seus 30 anos de lide jurisdicional. Fora uma discussão com suposta justa causa, pela ocorrência sistemática de “barulhos imotivados".

Relatou que a juíza de primeiro grau surpreendera-se com a constatação do verdadeiro motivo da demissão: "acúmulo de gases no estômago e no intestino da reclamante, nem sempre controlável no ambiente de trabalho". Tal circunstância constou do julgado monocrático, abordando aspectos vivenciais pois, “embora constrangedora a ventosidade, os seres humanos estão sujeitos a esse tipo de problema".

A sentença, então, reverteu a justa causa e condenou a reclamada ao pagamento de todos os direitos trabalhistas, além de deferir à reclamante a reparação financeira (R$ 15 mil) pelo dano moral.

No exame do recurso ordinário, as manifestações jurisdicionais vieram enriquecidas com explicações sobre os gases humanos: "São reações orgânicas naturais à ingestão de alimentos e ar, os quais, combinados com outros elementos presentes no corpo humano, resultam em gases, às vezes estrepitosos e incontroláveis, que se acumulam no tubo digestivo, que o organismo necessita expelir".

Depois do constrangimento geral na cerimônia de despedida, o desembargador arrematou de maneira ainda mais surpreendente: “Os flatos fazem parte da vida humana e nem sempre indulgentes com as convenções sociais”.

A gargalhada, então, foi geral. E durante a semana toda, o assunto mais comentado na “rádio-corredor” da Corte ganhou o epíteto de “a despedida do pum”.