Viajem, Senhores!


Sempre tive uma dúvida séria sobre esse turismo governamental de enormes comitivas oficiais para o Exterior. O transporte é o mais caro; os hotéis são aqueles onde os mortais comuns como eu e tu nunca poremos o pé – a diária equivale ao custo da nossa excursão inteira.

Dezenas de políticos, burocratas enfeitadinhos e Big Boss das super empresas refestelam-se por duas ou três semanas nas melhores acomodações, restaurantes e clubes do Circuito Elizabeth Arden. Não me convenço, com todas as vênias, de que o retorno compense.

Encaminhar negócios? Conversa fiada. Quem avia os business são as empresas que querem ganhar seu dinheiro; governantes querem gastá-lo, arrecadar impostos, passear de helicóptero e tomar o máximo do contribuinte, esse herói anônimo que sustenta a farra dos potentados oficiais e oficiosos.

O cidadão, que se estafa para dar de comer à família, faz bico no fim de semana e é assaltado ou morto na rua, ou dentro de casa, sem saber que bicho o mordeu – esse, quando viaja, é no ônibus calorento ou no carrinho apertado, para um programinha de praia, que o estressará ainda mais; a família reclamando, o cachorro esganiçando-se, o vizinho também neurotizado pronto a puxar encrenca.

Volta, tem pilhas de carnês à espera - IPVA, IPTU, IR, prestação atrasada, o escambau. Mas ele se dá por feliz; descarregou um pouco do cansaço, da mágoa e da frustração crônica no mar barrento e mal cheiroso. E isso é tudo; talvez mais o doce beijo dos filhinhos, o carinho da esposa - carregada também de dores, as comuns e as próprias, a perigosa adrenalina de um casinho passageiro.

(Desculpa leitora querida, o foco tão masculino; se eu tentar ver pelo teu lado, vou errar tudo – não sou Chico Buarque nem Caetano, não tenho a universalidade do Machado ou do Hemingway, machistas relativos).

Volto a esse horror que vivemos, nossa democracia sem povo, o divórcio absoluto entre o Estado e a Sociedade. Derrubamos a Presidenta, foi terrível mas necessário, acho eu; podemos absolver-nos um pouco da desgraça atual pensando que jamais se poderia imaginar fosse tão ruim a reposição – esse vampiro de almanaque, comprometido até os ossos com o que de pior aconteceu no consulado da sinistra estrela vermelha.

No momento em que rabisco este panfleto atrabiliário e ressentido (à mão, que meus computadores domésticos fazem beicinho e os do trabalho estão ocupados), nosso presidente é o Eunício. O Eunício! O Rodrigo (que não seria melhor) estava abanando as tranças em seu próprio tour; torço para que a fila ande e chegue a vez do Supremo (argh!) cuja presidente atual – Deus seja louvado se existir – é a Carmen Lúcia. Ela não é Teori nem Peluso, mas também não é um daqueles outros.

Pois viajem, Senhores: a vida é curta e o mundo é grande – e os pagantes são muitos e pacientes. Abram seus horizontes, cevem sua família, aprendam alguma coisa com Macron ou com o Parlamento Sueco (atenção: a Noruega é outro País!). Aqueles branquelões são uns trouxas, pagam (e alguns fazem) a própria comida, lavam a sua louça, deslocam-se de metrô, bebem aquela vodka horrorosa de batata e moram em pavilhão coletivo.

Aprendam, mas não tentem ensinar aos nórdicos aquelas coisinhas que os Senhores fazem aqui no seu dia a dia. Lá, pode dar cadeia direto. Não precisa nem Operação Lava Jato.