A fortuna do “Padre Eros”


Na cidade de 150 mil habitantes, o padre -  filho único - herdara todo o patrimônio deixado por seus pais. Era um homem rico - todos sabiam.

Liberal, o religioso não obedecia ao celibato.  Metade dos paroquianos sabia que ele mantinha uma união “semi-estável” com uma mulher de meia idade. Ela morava num lar montado pelo religioso, que a visitava quase todas as manhãs. E ela, embora frequentasse a missa dominical, jamais punha os pés na casa paroquial.

O padre também gostava de intimidades quantitativas. Para isso fazia incursões quinzenais -  e sempre matinais - numa cidade próxima, onde, então apelidado de “Padre Eros”, se encontrava com jovens parceiras para eventualidades simultâneas. Todas eram gratificadas de mão aberta.

A mulher da união “semi-estável” sabia disso e tolerava.

Certo dia, o padre sofreu um infarto e morreu na casa canônica. Logo soube-se que o finado deixara testamento. “Por este instrumento, é feita a doação de todo o patrimônio ao bispado” – certificara o tabelião, em escritura pública.

A mulher da união “semi-estável” ajuizou ação ordinária e - melando o testamento - quis amealhar o patrimônio todo. Ela perdeu em primeiro grau, mas o tribunal deu provimento parcial à apelação, assegurando-lhe 50% de uma fazenda, metade de dezenas de terrenos e o rateio dos saldos bancários e dos semoventes. A câmara determinou que a liquidação se fizesse por artigos.

Baixaram os autos, mas o juiz se enganou, determinando a perícia por arbitramento. O laudo arbitrou para a “semi-companheira” um bom dinheiro.

Só então o bispado impugnou, exigindo nova perícia, para que a liquidação se fizesse ´por artigos´ – como o tribunal determinara. Um jovem engenheiro foi designado para a nova perícia. Ainda que eficiente, ele desconhecia as diferenças entre ´liquidação por arbitramento´ e ´liquidação por artigos´.

Duvidoso, o engenheiro dirigiu-se, ao juiz, que foi professoral: “Se verdadeiras as respostas do laudo anterior, aproveite-as integralmente. Mas mude o introito, escrevendo que está apresentando uma ´liquidação por artigos´. E repita essa expressão umas três ou quatro vezes no laudo”.

Assim foi feito. A nova ´liquidação por artigos´ foi apresentada, a perícia foi homologada e as partes não recorreram. A “semi-companheira” do padre finalmente recebeu o quinhão assegurado pelo tribunal: um pouquinho mais de R$ 5 milhões.

“Não é uma fortuna como os propinodutos brasilienses, mas equivale a 10% da dinheirama que a Polícia Federal encontrou no bunker baiano” – comparou a rádio-corredor da OAB local.

Amém!