A pandorga sem rabo


Nós gaúchos sabemos muito bem o que é uma pandorga, deixando pipa como designação para os caminhões que transportam água.

Lembro do Morro Ricaldone, parte integrante da minha infância. Na época ele estava livre das absurdas edificações que foram permitidas em sua encosta. Era possível não apenas a visão do Rio Guaíba, hoje rebaixado a lago, mas também o lazer dos seus frequentadores.

Saudosa época de orgulho gaúcho, sendo um dos seus símbolos a ponte móvel que também era avistada do morro. Em várias oportunidades acompanhei meu pai levando gente de fora para mostrar a ponte. Entre esses, agora entendendo a óbvia falta de emoção e surpresa com a obra, incluo um casal de parentes vindos da Alemanha.

Foi lá no Ricaldone que junto como meu pai aprendi a construir e soltar pandorga, um verdadeiro feito para um menino curioso com as possibilidades das engenhocas que não eram compradas em lojas.

Permaneci atento à confecção da pandorga, com a imaginação já muito além do que ela subiria quando pronta. Para mim ela era gigante e desafiaria os perigos das alturas, encantando a todos com as suas cores e beleza.  Ela era vermelha, verde e amarelo, a nossa bandeira do Rio Grande do Sul.

Papel encerado, barbante, goma arábica, tiras de trapos e finíssimas varetas de taquara. Juntando tudo, a reconhecida habilidade do seu Rudi.

Dele, uma longa e coerente explicação com conceitos da física, acerca da importância do rabo, ou da cauda na pandorga. Ele era minucioso e didático nas suas explicações. Lembro como me explicou o que era a guerra. Foi com dois soldadinhos de chumbo e um martelo de madeira do quebra-nozes, utilizado como fronteira territorial entre países imaginários.

Logo entendi que a cauda era um  fator de estabilidade e de equilíbrio. Sem a cauda, a pandorga não teria rumo, tal o ditado gauchesco.
                     
Pois bem, com ela no braço do meu pai e eu segurando a cauda cuidadosamente enrolada, partimos da Cristóvão Colombo, pois morava em frente do Cinema Colombo, rumo ao Morro Ricaldone. Uma aventura no mês de setembro que, segundo meu pai, era a época própria para soltar pandorga por causa do vento.

Ela foi, subiu até quase se perder das nossas vistas.

Com o encanto da subida, um certo desencanto, pois logo a gigante passou a ser minúscula na grandeza do que chamava de céu e, ainda, ninguém olhou para cima para admirar a sua beleza. A minha vontade era a de chamar a atenção de todos os presentes  para que olhassem para a “obra” em seu encantador primeiro voo.

Quanto à cauda, total razão ao meu pai! Foi ela quem deu estabilidade e segurança para as manobras que ele me ensinava.

Logo depois, em um verdadeiro acréscimo de sofisticação, passei a saber o que era o tal de telegrama.  Sim, aquele pedacinho de papel furado no meio e com um rasgo, que encaixado no barbante subia em grande velocidade até a pandorga.

O temor de que o barbante rompesse, de que a cauda soltasse ou de que outra pandorga se aproximasse embaraçando a linha, me dava um certo frio na barriga. O mesmo que me acompanha ao longo da vida em situações mais perigosas.

Mas o meu assunto é futebol e o Internacional. Claro que é, mas nada mais parecido com uma pandorga sem rabo que o meu querido Internacional de hoje.  O rabo no caso é a direção eleita para fazer o melhor, com rumo, estabilidade e segurança.

O melhor não foi e não está sendo feito.
 
Não faz muito foi apresentado o novo técnico, aquele que dirigirá a equipe principal de futebol em 2018, a quem desejo de pronto o maior sucesso, mas que estava no clube desde o começo do ano, quando foi contratado o Zago. A solução de hoje, estava lá dentro, quando no desespero foi contratado o Guto Ferreira a quem devemos uma multa contratual.

Nós, colorados, jamais desejamos o título de campeões da Série B, ou da segunda divisão. É um título que sequer poderia ser festejado. Tínhamos sim uma tarefa restaurativa da nossa grandeza e da nossa história: retornar para a Série A.

Bem, mas já que estávamos com os pés lá, já que a nossa folha de pagamento é no mínimo dez vezes maior que a dos nossos adversários e, principalmente, por que somos mundialmente campeões, deveríamos ter discretamente, sem um foguete ou sorriso sequer, ter ganho o título. Pior do que não ter ganho, foi contabilizar o saldo de um ano de trabalho no futebol com baixíssimo resultado e gerando até mesmo uma apreensão final.

Bem, sem querer nada de mal para o clube que integro, ouso dar uma de vidente sem turbante, antecipando que lá por abril ou maio de 2018, estaremos retomando o tema “técnico de futebol”.

Ouso, ainda, afirmar que, com o que está deixando de ser feito, sofreremos muito no Brasileirão da Série A. Com certeza, não será isso que nos fará menos colorados ou torcedores, mas, com certeza, nos fará perceber que a virada de página, aquela necessária para a disputa de grandes títulos, ainda não foi feita.

Lembro de um querido amigo já falecido que, quase ao final da sua vida, testemunhando a possibilidade da eleição de um presidente do Internacional por aclamação do Conselho Deliberativo, me disse: “É um perigo ele ser eleito sem um programa escrito. Precisamos de um programa!”.

Pois bem, o tal presidente foi eleito, não apenas naquela ocasião, mas também em uma segunda e em ambas sem o tal do programa de gestão. Sim, é ele mesmo, aquele que nos levou para uma triste e inusitada condição. O nosso rumo foi traçado apenas pela variação do seu humor.

Deu no que deu. Mas os de agora também não têm programa. As coisas no Inter continuam sendo feitas ao sabor das vontades limitadamente pessoais e dos arranjos de ocasião.

Como diz a música, mudaram apenas as estações... Não há projeto de modernização da gestão, de profissionalização profunda e séria da estrutura orgânica ou de estruturação coordenada, sistêmica e estratégica das diversas categorias do futebol, etc.

Volto a dizer: a única novidade para a temporada é o técnico que já estava lá.                

O projeto é o improviso.
                                       
A contratação de jogadores é um capítulo à parte e desde o início do ano me lembra muito um certo programa de tevê, no qual os participantes em poucos segundos deveriam pegar o maior número de mercadorias expostas em prateleiras que imitavam uma loja de supermercado. Sem nenhum critério, pegavam o que estava pela frente.
                  
A minha conclusão não pode ser outra: pandorga sem rabo não tem rumo e corre o risco de cair.