A mala


Adroaldo Furtado Fabrício
Advogado, jurista, ex-Presidente do TJRS 

Era uma vez uma comuníssima e modesta mala de viagem, que nunca havia aspirado a destino mais glorioso do que transportar em seu ventre a roupa e os badulaques do seu dono, quando viajava. Camisas, cuecas, gravatas, eventualmente um terno bem dobrado; houve ocasião até em que, com a discrição de sempre, levou em seu interior alguma peça íntima feminina, que só por descuido foi parar entre os pertences do senhor e viajou com ele – motivo de um quase divórcio, mas disso a mala era inocente.

Tinha história, a mala. Já fora extraviada e andara perdida em Tenerife, enquanto seu dono desesperava-se em Belo Horizonte – aonde fora apadrinhar um casamento – sem a roupa de cerimônia que o evento pedia, sem mais paciência e sem fé na Humanidade. Já havia sido maltratada por carregadores grosseiros, por viajantes inexperientes a quem fora emprestada e pela senhora do proprietário, quando encontrara no seu interior objetos que lá não deveriam estar.

Já fora apalpada por policiais, farejada por cães, vetada pelas companhias aéreas por excesso de peso, amaldiçoada pelos porteiros de hotel quando se lhe rompera a alça. Mas também presenciara momentos de intensa e deslumbrada felicidade quando as crianças encontravam nas suas entranhas os doces e os presentes generosos, nas muitas vezes e em que funcionara como trenó de Papai Noel. Veterana de variadas venturas e de amargos desencantos, já não se abalaria com o mais que lhe pudesse suceder.

Naturalmente, não tinha culpa, a coitada, das amarguras que seu conteúdo ou sua ausência pudesse causar, como não teria mérito algum pelas alegrias proporcionadas. Era uma simples mala, e uma só. Mesmo quando se amontoava nos saguões, nos carrinhos e nos porões com suas similares, sempre tão diversas, mantinha uma certa individualidade, conferida pelas peculiaridades de seu conteúdo, quando não pela sua aparência externa, que o amo procurava particularizar.

Um belo dia, encheram-na de dinheiro em notas graúdas; muito dinheiro vivo. Um peso enorme, o maior que ela já transportara. Com esse conteúdo, fora arrastada penosamente por pisos duros e irregulares, aos solavancos. Continuara a sacudir-se em um porta-malas e outra vez percorria caminhos inusitados para um ser do seu gênero. Arrastada por um condutor apressado e furtivo, como precisa ser quem puxa uma fortuna de origem inexplicável e destino obscuro.

Não terá sido a primeira nem a única mala a passar por essa experiência. Dezenas de irmãs suas viriam a ser encontradas com recheio semelhante em certo apartamento. Mas, nessa penosa ocasião, ela foi fotografada e videografada enquanto sacolejava, rebocada entre um bagageiro e outro, por um senhor muito consciente do que carregava e cauteloso demais – mas não o suficiente. A mala, que discretamente percorrera as rotas mais variadas por motivos também desiguais, chegava a seu momento de glória, com imagem estampada na Europa, França e Bahia.

Paralelamente, outro episódio foi gravado: uma conversa entre duas pessoas perfeitamente conhecidas e identificadas. A palavra mala não foi então referida, ao que parece, mas era dela e de suas congêneres que se tratava. De pagamentos que não podiam deixar marcas e por isso tinham de ser feitos em moeda sonante, em troca de favores e vantagens igualmente omitidas no teor da charla amistosa, mas por demais sabidas. Não seria de esperar-se que os inocentes, além, da corda, dessem também a forca.

Mas a mala célebre, flagrada em vídeo, coitada, era uma só. E, tão solitária, não seria suficiente para embasar uma investigação criminal, sem importar o valor que nela se continha ou as circunstâncias da viagem. Esse é, pelo menos, o entendimento da autoridade maior da instituição encarregada de tais investigações no âmbito da União – coincidentemente, nomeada por um dos interlocutores.

E assim se vai estancando a sangria.