O caix√£o das gavetas secretas


Por Mauricio Antonacci Krieger, advogado (OAB-RS nº 73.357)

No leito da morte, Wilsom chama um de seus filhos a quem entrega uma carta. Nela pede que seu desejo, ali escrito, seja inteiramente atendido. Poucos minutos depois, o idoso morre. O filho abre o envelope e percebe -  qual testamento - o desejo do pai em dividir a herança e... um pedido inusitado: ser sepultado em um caixão, com duas escamoteadas gavetas, que já mandara fazer e deixara pronto.

No testamento particular, breves instruções com um pequeno mapa sinalizando o local onde estavam escondidos cinco mil dólares; estes deveriam ser colocados dentro das duas gavetas do caixão excêntrico e fechadas com cadeados. Destes, as chaves deveriam ser jogadas no rio que margeia a cidade. 

O documento insiste para que o desejo de última vontade seja cumprido, pois Wilsom era devedor dessa quantia para um irmão que falecera em 2010. No arremate, uma frase: “Quando eu chegar ´lá em cima´ quero acertar as contas com o mano, fazendo as pazes, assim vivendo nós em harmonia eterna”.

O filho segue as instruções do pai e o enterro acontece como o planejado: o provecto senhor é sepultado com os dólares dentro das duas gavetas do caixão.  Uma semana depois, outro filho de Wilsom entra com ação judicial, requerendo a exumação para a retirada de todo o dinheiro, arrolando-o no inventário, para futura partilha.

Há necessidade de urgência na prestação jurisdicional, a fim de evitar o furto, visto que muita gente sabe da história” – arremata a petição.

O filho que fizera o sepultamento do pai, contesta. Alega que a última vontade do genitor vale mais do que a quantia enterrada. O caso, ainda sem definição judicial, está sendo analisado por uma Vara de Família gaúcha. Muitos duvidam que o dinheiro ainda esteja lá.  

Na “rádio-corredor ”forense, palpiteiros tentam adivinhar a futura decisão judicial - que poderá abrir precedentes para que muitos outros “pão-duros” também enterrem joias e pertences.

Por enquanto, o administrador do cemitério exerce com lealdade suas funções de “fiel depositário do esquife e todo o seu conteúdo”.