Mulher juíza, não!


Aos 25 de idade, a jovem bacharel em Direito é aprovada em concurso para ingresso na magistratura gaúcha e é designada para uma vara criminal de comarca gaúcha, onde o machismo ainda tem alguns absurdos rompantes.

No início de uma tarde forense - em que estão pautadas 20 audiências para o oferecimento de suspensão condicional dos processos - adentra à sala um homem trintão. Ele está pilchado, botas, bombacha, lenço vermelho, bigode grande, “todo a gaúcho”. Carrega uma sacola de viagem.

A magistrada olha a denúncia: “Crime ambiental, consistente em maus-tratos contra o próprio cavalo de sua propriedade” – e começa a explicar sobre o benefício e suas condições. E esclarece, claro, que não era obrigatória a aceitação.

A juíza percebe, no entanto, que o homem não dá a mínima ao que ela lhe fala. Entrementes, ele procura alguma coisa dentro da sacola. Dela, de repente, retira um laço de couro e o lança em cima da mesa principal.

A magistrada assusta-se com o inesperado e com o barulho da argola batendo na madeira, e, nessa cena tragicômica, ainda tem que escutar – do homem que se ergue da cadeira – uma frase discriminatória: “Eu não aceito uma mulher juíza”.

Estão na sala de audiências, a juíza, a promotora, a defensora pública e a escrevente. Quatro mulheres mudas diante da postura ameaçadora de um homem só.

Há um hiato de cinco ou dez segundos, a magistrada reage com um olhar fulminante, eleva o tom de voz e adverte: ”Ou o senhor aceita uma juíza mulher, ou eu vou lhe prender por desacato à autoridade”.

O homem senta novamente, ?ca alguns instantes em silêncio e responde – meio conformado que – “então eu aceito a juíza mulher”.

Afinal, acordada a proposta de suspensão condicional do processo, o termo é assinado, a audiência é encerrada e o valentão sai. E só então aparece o guarda forense para informar: “Doutora, passei para lhe dizer que esse cara aí não bate muito bem”.

A juíza já aliviada agradece a informação e encerra o caso: “Bem que o senhor poderia ter me dito isso antes”...