Justiça pelos próprios gritos


É pura ficção da “rádio-corredor” forense. O cidadão cinquentão, divorciado, estressado pelo excesso de trabalho, vai em busca de serviços sexuais pagos e, na conjunção, se envolve com dois sujeitos adeptos da cirurgia e do tratamento hormonal para mudar de sexo.

“São pobres transexuais” – diria uma advogada feminista. “São dois que, outrora, chamaríamos de travestis” – oporia um médico legista.

Radicalismos à parte, o certo – o errado, aliás - é que o cidadão aceita experimentar além daquilo que originalmente busca. O preço é alto, o programa se completa, no final o cliente não dispõe da grana toda em espécie. Mas, invocando sua honorabilidade, propõe mandar, no dia seguinte, um assessor levar o dinheiro. “Amanhã, cash!” – como convém.

Os prestadores do serviço dão dois votos de confiança e concedem o crédito temporário.

Mas o cidadão viaja e esquece da dívida. Passam-se duas semanas. Os pretensos credores – desacompanhados de advogado - procuram um Juizado Especial Cível, onde expõem suas razões e expectativas de direito.

O servidor se alonga em explicações jurídicas. Explica o empecilho processual, discorre sobre a necessidade de prova. A dupla desiste de ingressar com a ação. Na saída, os dois insinuam “fazer justiça pelas próprias mãos”.

Uma semana depois, enquanto a Copa do Mundo avança, os credores vão pessoalmente à forra e, aos gritos, tentam fazer prevalecer o seu jogo. Os vizinhos – irritados pelo constrangimento - acionam a polícia e a imprensa. Duas horas depois, os prestadores do serviço conseguem receber parte do que desejavam – ou extorquiam.

“Falta de decoro, capaz de rechear o livro das Páginas da Vida”... – diria reticente um empolado especialista em Direito Eleitoral.

Mas é tudo pura ficção. Se fosse real, estaria acontecendo na distante Rússia, manhã do jogo Brasil 2 x Costa Rica 0.

E não se fala mais nisso.