Hierarquia necessária nos vestiários; caso contrário o caos se estabelece


Na minha época, quando duas pessoas não paravam de discutir, normalmente invocando argumentação desprovida de inteligência, logo alguém dizia: “bate boca de lavadeiras”.

É daquelas expressões que nos acompanham desde a infância e desafiam a nossa imaginação. Sempre imaginei aquelas cenas, de uma beira de rio ou de lago, onde lado a lado se aglutinavam mulheres lavando roupas. Com certeza, bastaria um desentendimento para a discussão iniciar e não terminar mais.

A cena em questão não induz a um ambiente retórico, repleto de argumentações inteligentes. Muito provavelmente desbordariam para ofensas pessoais e acusações de toda ordem.

Na Jus Vermelha anterior abordei a importância do Gre-Nal para a dupla e os riscos periféricos, sempre presentes. Em um clube de futebol cada qual deve desempenhar o seu papel, direção, comissão técnica, jogadores e torcedores.

A direção tem a responsabilidade de conduzir a política, tanto interna como externa.

Não raro, testemunhamos manifestações anteriores ao clássico que não escondem o objetivo de mobilizar a torcida, dando o tom da disputa. Essas manifestações, com raríssimas exceções, sempre foram pensadas e atentaram para os limites do tolerável.

Quem não lembra da patrola que atolou no Beira-Rio?

Quanto à torcida, é óbvio que a flauta e as provocações são o recheio de uma rivalidade que engrandece o nosso futebol. Repito, desde que civilizadas e que não descambem para os confrontos irracionais.

Há algo que é inevitável no futebol: perder. Assim como é necessário saber ganhar, também é indispensável saber perder. A derrota, quando bem administrada, pode ser motriz de um novo momento.

O último Gre-Nal não foi ruim, as duas esquipes se apresentaram com indisfarçável gana de vencer. Demonstraram isso, não houve desídia, mas entrega em campo. O Internacional venceu e com isso permanece liderando vitórias no clássico e a classificação no brasileirão. Isso não é flauta, é constatação.

Terminado o Gre-Nal, fomos todos surpreendidos pelas declarações do técnico do adversário. Ao meu juízo, perigosamente destemperadas. Acusou os jogadores do Internacional de “pedirem penico” num clássico anterior para que não sofressem uma humilhante goleada.

Isso seria possível? É claro que a pretensa denúncia tardia não tem conexão com a realidade. Para tanto basta que lembremos da disposição da nossa equipe em vencer a partida.

Não seria crível que jogadores do Internacional praticassem a ação - revelada só após a derrota do adversário - sem o conhecimento da direção. Ainda, não seria razoável a postulação, haja vista que a mesma teria como pressuposto a possibilidade de o adversário fazer “corpo mole”.

Não acredito nisso e concluo que não passa de uma cortina de fumaça para encobrir a frustrante derrota. Além da maldosa manobra, o comportamento do treinador inaugurou a permissividade para que o bate-boca entre os jogadores fosse a tônica.

Tenho um rígido conceito acerca do papel de jogadores. Durante a partida é natural que se verifiquem jogadas mais duras, reações de desagrado com o comportamento do adversário ou até mesmo do árbitro. Como se diz, isso é do jogo.

O que não é do jogo é que atletas profissionais sejam tomados pela emoção após a adrenalina da partida ter baixado. São profissionais e o que lhes é reservado é o trabalho e a dedicação nos treinos e nos jogos.

Reconheço que houve uma lacuna de comando. A hierarquia deve incidir nos vestiários, pois caso contrário o caos se estabelece.

Recentemente, após ter declarado publicamente que jogador não pode desafiar as instâncias diretivas ou consultivas do seu clube, referindo-me a uma situação interna do Internacional, fui alvo do seguinte comentário, por parte do meu amigo Cassiá Carpes: “O Siegmann tem que saber que a ditadura acabou”.

É óbvio que acabou. Mas disciplina e hierarquia são aspectos contratuais, próprios à natureza jurídica da relação entre atletas e empregador. Aliás, para fazer jus ao momento que vivemos, só faltava mais essa: treinador e jogadores dando o tom da política de convivência.

Se há algo que não combina com o treinador do rival é a ingenuidade. Admitir a sua versão de que procurou o vestiário colorado para cumprimentar o Odair, não me convence.

Observadas as circunstâncias, o cumprimento entre os técnicos, sempre é junto ao gramado.