Não, Moro!


Por Adroaldo Furtado Fabrício, advogado, jurista, ex-presidente do TJRS

Sergio Moro vem sendo injustiçado por setores da mídia e da política que nele veem um agente de interesses partidários ou de facções da tragicamente dividida opinião nacional. Nos episódios em que mais pedras lhe atiraram, penso que ele estava certo. Tem sido um juiz modelar: firme, tecnicamente preparado e imune ao estrelismo imposto pelas suas circunstâncias e, até poucos dias ao deslumbramento dos refletores.

Mas não agora. Parece ter sido seduzido com demasiada facilidade pelo canto da sereia. Embora tenha eu graves dúvidas quanto à vantagem de trocar uma carreira brilhante em terreno conhecido, com excelentes perspectivas, pelos azares e armadilhas da política, tenho, como quase todos, a impressão de haver-se ele deixado atrair pelos holofotes dos quais, diga-se en passant, ele não precisava.

Moro encarnou uma forma nova de fazer justiça, acima das tempestades e turbulências do ambiente e até das suspeitas de parcialidade e prévia escolha de lado. Não cometerei agora a sandice – que alguns apressados praticam – de pensar que, por todo o tempo, o juiz atuava de olho em futuras e escusas recompensas. Ninguém faz isso por 22 anos sem que a máscara lhe caia; ninguém consegue manter por tanto tempo uma coerência postiça.

Mas ouso opinar com o mais decepcionado repúdio à decisão de retirar-se do lugar tão merecidamente conquistado, e onde certamente continuaria a luzir, para o brilho fugaz de uma joia falsa. Um ministério (ou um superministério, que seja) é coisa menor do que uma carreira judicante excepcional como a dele, em plena ascensão e com auspicioso futuro. Gloria transeat.

Embora não os acompanhe, compreendo o júbilo dos que vêm no episódio a confirmação de antigas suspeitas de partie pris. A infeliz opção pelo falso brilhante, para quem quer ver chifre em cabeça de cavalo, vem a talho de foice. É uma oportunidade única para o “Eu não disse?” Os que sempre buscaram motivos de suspeição estão exultantes com o prêmio que lhes cai do céu.

Custava esperar dois anos por uma vaga no Supremo? Esta, sim, seria uma promoção condigna. Dentro do desenho lógico traçado pela luminosa trajetória de um juiz extraordinário. Talvez um projeto de biografia tenha sido irremediavelmente inutilizado por um momento infeliz. Também não é ocioso lembrar que a autoridade a cujo aceno tão sequiosamente Moro acedeu está bem longe de ser uma unanimidade nacional: emerge das urnas ante uma nação mais fraturada do que nunca, em instante de inaudito acirramento de ânimos e feroz polarização.

Sem questionar os motivos da opção (talvez nem todos notórios), ela passa a impressão – outra vez ao arrepio das expectativas – de que o ilustre magistrado de ontem não chegara a perceber nunca a exata dimensão de sua investidura. Pareceria, de resto, haver certa ingenuidade na suposição de que pode dar certo esse salto sem rede da estabilidade segura de uma carreira exitosa em atividade de seu pleno domínio para o lamaçal imprevisível e minado da politicalha movediça, plena de traições e trapaças a cada passo.

Não se trata apenas de avaliar grandezas. Um superministério pode ser maior do que uma cátedra judiciária excepcionalmente prestigiada, dependendo da perspectiva. Mas não é esse o ponto: o momento, as circunstâncias, as pessoas, tudo parece indicar que a escolha não foi a melhor. Permanecendo onde estava, o magistrado manteria intocado seu prestígio merecido e confirmaria o que de melhor se disse e se pensou dele. A recusa, de resto, ratificaria uma grandeza de caráter e uma firmeza de convicções presumidas a partir de sua folha de serviços.

Meus votos são de que o ex-juiz tenha pleno sucesso em sua nova empreitada, para o bem dele e de nós todos. Mas não posso deixar de registrar: esse não é o meu prognóstico. A percepção é a de que perdemos um magistrado de escol e nada ganhamos em troca. Ou talvez ganhemos, pois ainda uma vez aprendemos a lição do nosso gaúcho: não se gaba o burro antes de passar o barro. Julgamentos finais, melhor deixá-los à História.