Ir para o conteúdo principal

Terça-Feira, 21 de Novembro de 2017

Pesadelo jurisdicional



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Por Rafael Berthold, advogado (OAB-RS nº 62.120)

Em meio a um sonho conturbado, a juíza encontra-se com ninguém menos do que a Jurisdição, em pessoa. A atmosfera sombria do sonho torna-se ainda mais pesada quando a Jurisdição finca os seus olhos nos da magistrada, advertindo-a:

Senhora juíza, saiba que isto não é um sonho. É, isto sim, um terrível pesadelo!

Mas quem é você e o que quer de mim? - indaga a magistrada, temerosa.

Sou a Jurisdição e tenho algumas contas a acertar com a senhora. Farei isso massacrando a sua consciência!

A juíza sente arrepios, e lhe faltam palavras para redarguir.

Ao perceber, a Jurisdição prossegue:

A senhora não tem vergonha de tratar tão mal os jurisdicionados e seus procura dores?

Como assim ´tratar mal´? Como é que eu posso tratar mal alguém com quem nem converso? Veja a placa pendurada no cartório, com os dizeres: “A magistrada não recebe partes ou advogados em seu gabinete”.

Mas isso é um absurdo! É dever do juiz receber o advogado em seu gabinete a qualquer momento, durante o expediente forense, independentemente da urgência do assunto, e de estar em meio à elaboração de qualquer despacho, decisão ou sentença! Isso não só é uma imposição de lei, mas uma obrigação moral perante mim, a Jurisdição!

Olha, eu nem sei que porque estou dando papo pra você. Deixe-me aproveitar o meu sono que, pra mim, é sagrado. É justamente por isso que eu só trabalho à tarde.

O quê?! A senhora só trabalha à tarde? Não é à toa que os processos se acumulam! Ninguém ousa negar que o volume de trabalho dos magistrados é enorme, mas, trabalhando um só turno, como espera dar conta do volume de processos? – indaga, boquiaberta, a Jurisdição.

Ora, você nunca ouviu falar na estagiariocracia? Pois é, eu a aplico em meu gabinete...

É até vergonhoso que você admita isso! - exclama, perplexa, a Jurisdição.

Qual nada, a estagiariocracia é uma moderna técnica de gestão! Está dando tão certo que até estou conseguindo começar meus fins-de-semana nas quintas-feiras.

A Jurisdição fica furiosa, e uma enorme veia pulsante se faz notar no meio de sua testa.

E se surgirem pedidos de liminares ou habeas corpus, enquanto você não estiver no gabinete?

Com uma expressão de culpa e resignação, a magistrada pontua:

É, nesses casos, eu tenho que admitir que jurisdicionado está... “prejudicado”, por assim dizer.

E nesse exato momento, em meio a sobressaltos, o sonho termina; e quem acorda, ofegante, em seu aposento, é a Jurisdição. Após um tempo para compreender o que se passara, a mesma desabafa:

Ufa, ainda bem que acordei. Juízes não vocacionados são, sem sombra de dúvidas, o meu maior pesadelo...


Comentários

Banner publicitário

Notícias Relacionadas

O juiz salvador

Uma piada da “rádio-corredor” da OAB nacional ironiza como, em algum lugar do universo, um magistrado teria salvo um notório político que estava se afogando numa praia deserta...

Charge de Gerson Kauer

Os direitos trabalhistas do anjo da guarda

 

Os direitos trabalhistas do anjo da guarda

O advogado tem, cedo na manhã de segunda-feira, uma consulta jurídica a atender. O cliente pretende o ingresso de uma ação trabalhista. O profissional da Advocacia escuta, anota e conclui que a solução está no atendimento por um psicólogo.

Charge de Gerson Kauer

A "otoridade 51"

 

A "otoridade 51"

Um bêbado tenta se equiparar às autoridades locais, ingressando no baile de centenário da cidade e ironizando o juiz: "Quando eu prendo alguém, não solto de jeito nenhum".