Ir para o conteúdo principal

Terça-feira, 23 de Maio de 2017
http://espacovital.com.br/images/direito & avesso.jpg

Trump



Foto Wonkette

Imagem da Matéria

Qualquer que seja a intensidade e o número de nossos problemas, não podemos ser desatentos ao que se passa na Matriz. A eleição norteamericana, queiramos ou não, afeta o Mundo e nos diz respeito. Eu teria duas ou três coisas a dizer sobre isso.

Primeira. O malfalado sistema eleitoral americano não é tão complicado quanto se propala. À parte alguns detalhes para os quais não temos espaço (e que não costumam influir nos resultados), o sistema é simples. Como a federação deles é de verdade, quem escolhe o Presidente não são os eleitores que vão às urnas, mas os Estados, cada qual com um peso específico proporcional à sua representação parlamentar. Nas urnas, os delegados-eleitores é que são escolhidos, ou, mais exatamente, o partido deles.

Um dos pontos que temos dificuldade em assimilar é que o vencedor leva tudo: cada Estado votará coeso e uno, por todos os seus delegados. Mas é perfeitamente lógico: não fosse assim, a eleição no colégio de delegados teria resultado idêntico ao da votação popular, e a intermediação seria inútil, até absurda. É da essência do sistema, pois, que o resultado final possa ser diverso daquele da votação popular – o que é raro, mas pode acontecer, e aconteceu neste ano. Se há espaço para corrupção e manipulações? É claro que sim, como em nosso sistema universal e direto, e em qualquer outro.

Segunda. Donald Trump não é um ET, nem uma excentricidade tão notável no panorama social yankee. Ao contrário, ele é a própria encarnação do sonho americano: um vencedor, um homem que construiu sua fortuna e seu prestígio a golpes de audácia. Pisou pescoços, destruiu mais (dos outros) do que construiu (para si). Saiu cada vez mais rico de suas muitas falências, enganou, mentiu, trapaceou – mas chegou onde queria.

Sua fanfarrice e descaramento para falar de tudo, inclusive dessa sua descomunal amoralidade, apenas lhe acrescentam o glamour folclórico de que vem ornado aos olhos do americano comum. Sendo rico e poderoso, é um homem de sucesso, e essa é a água lustral que lava todos os seus pecados.

O silêncio de seus eleitores (disfarçados de indecisos ou de indiferentes), que enganou os institutos de pesquisa, contrasta com o a exuberância dos seus contrários, os artistas, os intelectuais, os defensores do politicamente correto. De certo modo, aqueles tiveram um pudor e um remorso que o próprio candidato não tinha de seu passado. Mas o admiravam, no fundo, também pela sua desfaçatez, pela sua insensibilidade e pela sua capacidade de desprezar ostensivamente a opinião dominante.

Terceira. Não há nenhuma garantia de que seria melhor para o Mundo ou para os próprios americanos a vitória de Clinton. O próprio eleitor mostrou-se extremamente arredio e descrente: os índices de abstenção foram enormes e a soma dos votos dados a candidatos independentes chegou ao dobro da média histórica. Isso é extremamente significativo, em sistema onde o voto não é obrigatório. Ficou muito claro para quem quiser entender que a escolha foi pelo critério do menos ruim. A que nós, brasileiros – ai de nós! – estamos tão afeitos.


Comentários

Banner publicitário

Mais artigos do autor

Nossos comerciais

“Tenho especial aversão à publicidade governamental, sustentáculo maior das agências especializadas. E sei bem por quê: nunca logrei compreender a necessidade que possa ter um governo, entidade sem competidores, de apregoar suas virtudes”.

Ciumeira judicial

“É ruim que alguns magistrados se deem ao uso de meios outros para divulgar opiniões, posições e preferências indicativas de suas inclinações quanto a assuntos que deverão ser, ou já estão, submetidos ao juízo de outros colegas ou dos próprios boquirrotos”.

Os dejetos da democracia

“Emenda-se a Carta Magna, na maior parte dos casos, para resolver apertos momentâneos ou para ajustar o seu texto a programas ou interesses de governo – na contramão da normalidade, pois o esperado seria que os projetos governamentais, em todas as esferas de poder, se ajustassem à Constituição”.

Onde começa a independência

A notícia da posse de Alexandre de Moraes como ministro do Supremo - que a não ser tão triste seria pitoresca - "põe a nu a fragilidade intrínseca do nosso Poder Judiciário e sua extrema debilidade diante do imperialismo presidencialista".

Eles estão ganhando!....

"Desde o lamentável episódio da morte de Teori Zavascki - que permanece e certamente vai continuar envolto em névoa - instalou-se e vem crescendo entre os brasileiros menos ingênuos uma espécie de inquietação ou sentimento de mal-estar, na forma vaga de uma percepção incômoda: ´os bandidos estão vencendo´”.