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Edição de sexta-feira , 25 de maio de 2018.
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Trump



Foto Wonkette

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Qualquer que seja a intensidade e o número de nossos problemas, não podemos ser desatentos ao que se passa na Matriz. A eleição norteamericana, queiramos ou não, afeta o Mundo e nos diz respeito. Eu teria duas ou três coisas a dizer sobre isso.

Primeira. O malfalado sistema eleitoral americano não é tão complicado quanto se propala. À parte alguns detalhes para os quais não temos espaço (e que não costumam influir nos resultados), o sistema é simples. Como a federação deles é de verdade, quem escolhe o Presidente não são os eleitores que vão às urnas, mas os Estados, cada qual com um peso específico proporcional à sua representação parlamentar. Nas urnas, os delegados-eleitores é que são escolhidos, ou, mais exatamente, o partido deles.

Um dos pontos que temos dificuldade em assimilar é que o vencedor leva tudo: cada Estado votará coeso e uno, por todos os seus delegados. Mas é perfeitamente lógico: não fosse assim, a eleição no colégio de delegados teria resultado idêntico ao da votação popular, e a intermediação seria inútil, até absurda. É da essência do sistema, pois, que o resultado final possa ser diverso daquele da votação popular – o que é raro, mas pode acontecer, e aconteceu neste ano. Se há espaço para corrupção e manipulações? É claro que sim, como em nosso sistema universal e direto, e em qualquer outro.

Segunda. Donald Trump não é um ET, nem uma excentricidade tão notável no panorama social yankee. Ao contrário, ele é a própria encarnação do sonho americano: um vencedor, um homem que construiu sua fortuna e seu prestígio a golpes de audácia. Pisou pescoços, destruiu mais (dos outros) do que construiu (para si). Saiu cada vez mais rico de suas muitas falências, enganou, mentiu, trapaceou – mas chegou onde queria.

Sua fanfarrice e descaramento para falar de tudo, inclusive dessa sua descomunal amoralidade, apenas lhe acrescentam o glamour folclórico de que vem ornado aos olhos do americano comum. Sendo rico e poderoso, é um homem de sucesso, e essa é a água lustral que lava todos os seus pecados.

O silêncio de seus eleitores (disfarçados de indecisos ou de indiferentes), que enganou os institutos de pesquisa, contrasta com o a exuberância dos seus contrários, os artistas, os intelectuais, os defensores do politicamente correto. De certo modo, aqueles tiveram um pudor e um remorso que o próprio candidato não tinha de seu passado. Mas o admiravam, no fundo, também pela sua desfaçatez, pela sua insensibilidade e pela sua capacidade de desprezar ostensivamente a opinião dominante.

Terceira. Não há nenhuma garantia de que seria melhor para o Mundo ou para os próprios americanos a vitória de Clinton. O próprio eleitor mostrou-se extremamente arredio e descrente: os índices de abstenção foram enormes e a soma dos votos dados a candidatos independentes chegou ao dobro da média histórica. Isso é extremamente significativo, em sistema onde o voto não é obrigatório. Ficou muito claro para quem quiser entender que a escolha foi pelo critério do menos ruim. A que nós, brasileiros – ai de nós! – estamos tão afeitos.


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