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Terça-feira, 18 de Abril de 2017
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Testemunha



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A velha história da importância da presença do Coronel Albuquerque, no tabelionato de Cruz Alta, para que o titular da serventia concordasse em reconhecer a assinatura num recibo de uma vultosa quantia em dinheiro, preço de um campo vendido.

Juca Fabrício costumava lembrar uma velha história, ocorrida na sua longínqua mocidade, quando queria ilustrar sua convicção de que nenhum patrimônio pode ser mais valioso do que a credibilidade pessoal, o bom nome construído ao longo da vida.

(Será essa lição válida ainda hoje? Mesmo que os fatos nem sempre o confirmem, é preciso acreditar que sim.)

Rapazote de vinte e poucos anos, no início da década de vinte, ele foi incumbido de viajar de seu rincão (que leva o nome da família e hoje pertence ao município de Bossoroca) à cidade de Cruz Alta – grande e distante, além de desconhecida, dados os padrões da época e do lugar.

Fora encarregado de ir buscar uma vultosa quantia em dinheiro, preço de um campo vendido. Atenção, meninos: não se podia sequer sonhar, nesses idos, com algo que se assemelhasse à transferência de valores on line; aliás, nem mesmo agência bancária, telégrafo ou correio existia por aqueles confins.

A viagem foi feita a cavalo até Catuípe, e daí por trem até o destino. Fazia um frio horrível nesse inverno de 1921, tendo ocorrido justo na ocasião uma grande nevada, fenômeno raríssimo na região; os que viram as duas garantem ter sido maior que a de 1965, e isso não é dizer pouco.

Chegado em Cruz Alta, entrou em contato com o responsável pelo pagamento, que, razoavelmente, exigiu recibo com firma reconhecida. Ele não conhecia ninguém na cidade; o tabelião local não se dava por satisfeito com documento de identidade nem aceitava argumentos; só reconheceria a assinatura mediante abonação de duas testemunhas. Por muito que o próprio insistisse, empilhasse documentos e explicasse a dificuldade invencível em que se via, o notário permaneceu irredutível: volte com duas testemunhas, ou não volte.

E agora?

Depois de muito pensar, lembrou-se de um certo Coronel Albuquerque, que em menino conhecera negociando gado, inclusive com o pai dele, lá nos seus grotões. Tinha uma vaga ideia de que o personagem morava na cidade. Informou-se no hotelzinho onde se hospedara e confirmou que a memória não o enganava. Sendo o coronel pessoa muito conhecida na então pequena Cruz Alta, não houve maior dificuldade em encontrar sua morada.

Foi falar com ele, explicou sua situação, forneceu informações suficientes para comprovar a qualquer homem de bom-senso e de boa-fé que ele era realmente quem alegava ser. Generoso, o coronel dispôs-se a auxiliá-lo, marcando encontro à porta do cartório no dia seguinte.

Quando entravam juntos no tabelionato, o notário, vendo-os, acorreu pressuroso e prestativo ao encontro de ambos, desfazendo-se em cumprimentos e desculpas e perguntando ao espantado jovem:

- Por que o senhor não disse logo que conhecia o Coronel Albuquerque?


Comentários

Nedson Culau - Advogado 16.12.16 | 20:07:02
É... e "parece" que até hoje é assim.
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