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Terça-Feira, 17 Outubro de 2017
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Suprema desfaçatez: o desaforo privilegiado



Quando assumiu a Presidência o atual primeiro mandatário, registrei aqui mesmo a impressão de que, dessa vez, nem mesmo as moscas mudavam – tal era a repetição de velhos, batidos e malcheirosos nomes no primeiro escalão. Dei, então, um desconto: o governo era mais que provisório, era incerto quanto ao futuro: a titular, a esse tempo, estava apenas afastada. Era ainda possível que, passada essa fase, um gabinete mais consistente e menos comprometido fosse nomeado.

Mas, desde então, se as coisas mudaram, foi para pior. A indiferença dos governantes pela opinião pública e as constantes afrontas a ela cresceram de ponto. No atual governo, a relação entre indicado e indiciado deixou de ser mera semelhança verbal; chegou-se a definir a crença de que alguém com ficha absolutamente limpa não poderia aceitar nomeação alguma para não despertar suspeitas. Aliás, dizem que isso chegou a ocorrer pelo menos em um caso.

A escalada nunca cessou. Sucessivas designações e dispensas por conta de malfeitorias passadas ou presentes continuaram e continuam a ocorrer, uma atrás da outra. Sequer explicações aceitáveis foram dadas a cada uma delas; o olímpico desprezo pela opinião chegou ao ponto da consagração explícita: era preciso aproveitar a “falta de popularidade” para fazer tudo o que ninguém quer.

Parecia que o limite fora alcançado quando se criou um ministério (na contramão da apregoada redução numérica das excelências imunes à jurisdição comum) com o fim especial de ofertar foro privilegiado a um dos mais notórios gatos da praça. Repetiu-se, assim, a manobra anteriormente tentada pela ex-presidente, no fito de blindar um amigo e conselheiro, então detida pela indignada comoção nacional contrária e pelo veto do STF.

Mas não havíamos ainda chegado ao fundo. Quando se tratou de nomear um novo integrante da Suprema Corte para substituir o “acidentado” (sim, entre aspas, pois, por menos que se goste de teorias de conspiração, a ingenuidade tem limites), o Impassível tira do bolso o nome mais óbvio e adequado ao fim de “delimitar” (também entre aspas, por que a palavra não é minha) a Operação Lava Jato. E, de quebra, cria uma vaga preciosa a ser preenchida, com certeza, pelo mesmo critério do compadrio.

Certo, não havia outro Teori Zavascki, figura absolutamente destoante do perfil a que, ai de nós, estamos habituados a ver na cena pública. Mas, se houvesse, também não seria o escolhido, à luz dos critérios vigentes. E daí? Daí, nada. O baile segue. Quem for crente, reze. Quem não for, que aguente o desaforo privilegiado, já que os panelaços, pelo visto, acabaram.

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Adroaldo Furtado Fabrício escreve quinzenalmente no Espaço Vital. Publicação de seu próximo artigo na edição de 24.02.2017.


Comentários

Antonio Frizzo - Jornalista/empresário 10.02.17 | 13:27:38
Prezado Adroaldo! O texto veio ao encontro de tudo o que tenho escrito na imprensa há muito tempo. É absolutamente inacreditável que boa parte do povo brasileiro, travestidos e fardados de verde-amarelo, notadamente de boa formação cultural, tenham saído às ruas (mobilizados por meios de comunicação que não resistiriam a uma investigação séria na sua conduta), protestando "CONTRA A CORRUPÇÃO" e agora, depois dos mesmos de sempre terem tomado o poder, assistam, impassíveis, a tantos desmandos.
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