Ir para o conteúdo principal

Sexta-feira, 19 de Maio de 2017

Horizonte azul para “inimigos do povo” e a vitória da corrupção



Arte de Camila Adamoli

Imagem da Matéria

A decisão do STF, na terça-feira (25), de soltar dois condenados (José Carlos Bumlai e João Claudio Genu) na Operação Lava-Jato, formalizou um precedente e sinalizou um agradável horizonte próximo para outros 12 sentenciados por Sérgio Moro, que ainda não têm, contra si, decisões de segunda instância (TRF-4). Entre os inquilinos das celas de Curitiba que poderão ser bafejados pela sorte jurídica – e pela demora do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (RS, SC, PR) estão os notórios Eduardo Cunha, José Dirceu, Marcelo Odebrecht, João Vaccari Neto e mais outros oito indivíduos.

Dando a impressão de desolação, por ter sido vencido na tentativa de manter Bumlai e Genu presos, o ministro Edison Fachin fez - um dia depois do julgamento - uma sutil comparação. Referiu-se a “Um Inimigo do Povo”, obra teatral que conta a história de um médico odiado por certa fatia da comunidade de uma cidade da Noruega, ao denunciar a comprovada contaminação de águas. Prevaleceu, afinal, a vontade dos mais ricos, que controlavam hotéis e pontos turísticos e, assim, ganhavam bom dinheiro.

Apesar de lutar pela verdade, o enredo mostrado em 1882 pelo dramaturgo norueguês Henrik Ibsen revela – para desdouro das pessoas de bem – que o médico acabou isolado por “colocar em risco os lucros e sucesso dos seus conterrâneos”. E a corrupção venceu!...

Os bastidores de “Um Inimigo do Povo”

A história passa-se numa cidade norueguesa, cuja maior fonte de renda advém de sua estação balneária. O médico-personagem Dr. Stockmann inquieta-se com as doenças que turistas e concidadãos apresentam e resolve investigar a água da cidade. Para sua surpresa, descobre que a água está poluída, aparentemente devido a lançamentos de lixívia contendo impurezas dos curtumes da cidade, de propriedade de outra fatia social de poderio político e econômico.

Homem da ciência, o Dr. Stockmann sente-se no dever de levar a verdade ao povo. Mas sua denúncia é rebatida: ela poderá causar o encerramento do balneário, fechar hotéis, trazer desemprego, etc. além de provocar uma suspeição geral sobre as qualidades das águas medicinais, mesmo depois das obras necessárias (dois anos) para resolver a questão. A conjunção causaria um transtorno para a cidade, que deixaria de lucrar com o turismo.

Não denunciar o fato, contudo, vai contra os ideais do médico Stockmann.

A poluição das águas é usada como metáfora no drama do teatrólogo Ibsen para denunciar a sujeira na estrutura social daquela cidade - no governo, na política, na imprensa, no comércio e na sociedade em geral. A insistência do Dr. Stockmann em fazer prevalecer a verdade torna-o persona ´non grata´ para a população, sobretudo ao defender a ideia de que os valores ali estão sustentados sobre a mentira.

O médico torna-se um inimigo da maioria da população manipulada por agentes políticos - e ele conta apenas com o apoio de sua família e de poucos membros da comunidade, que também passam a sofrer represálias por conta disso. A convicção do Dr. Stockmann em relação à verdade, contudo, faz com que ele se mantenha firme em seus propósitos até o fim.

O enredo político-econômico é dividido em cinco atos, seguindo uma estrutura típica do drama realista do final do século XIX.

O último ato representa a vitória da corrupção e mostra uma nítida desaceleração de outros componentes, em contraste com a agitação dos atos precedentes.

Se o leitor interessar-se em conhecer toda a história e saber o que Eduardo Cunha, José Dirceu e outros do mesmo time podem ter a ver com o que aconteceu na Noruega, podem acessar o Wikipedia, onde a história está – apesar de longa – muito bem contada. Basta clicar aqui.


Comentários

Banner publicitário

Notícias Relacionadas

Condenação de servidora e vigilante por desvio de R$ 1 milhão em medicamentos

Ela era uma das responsáveis pela falsificação de documentos para a liberação dos produtos. Ele recebia os remédios em nome próprio ou de pacientes fictícios. STJ diz que “embora o peculato seja próprio de funcionários públicos, o delito também pode ser imputado aos que não possuam tal título”.