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Edição de sexta-feira , 25 de maio de 2018.
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El padre loco



Toda experiência humana tem alguma coisa a ver com o direito, ou com seu avesso. O leitor me há de perdoar que hoje, ao invés de cuidar de togas, processos e honorários (assuntos que se vão tornando indigestos), fale de um livro inspirador, que me encantou e comoveu. É Entre meu filho e eu, a lua, de Carlos Páez Vilaró, cuja edição é uruguaia mas foi feita também, separadamente, em inglês e português.

O pai é o autor do livro, um artista plástico, pesquisador e escritor uruguaio de prestígio mundial e bastante conhecido no Brasil, pois manteve estúdio em São Paulo por alguns anos, estudou a cultura afro na Bahia e foi amigo de intelectuais e artistas brasileiros.

O filho é Carlitos, um dos jovens integrantes de uma equipe de rugby em viagem para o Chile, a bordo de um avião perdido na cordilheira nevada. O episódio é conhecido como Tragédia dos Andes, que rendeu alguns livros e pelo menos um filme. Infelizmente centrados, quase sempre, em um dado sensacionalista: a antropofagia a que se viram forçadas as vítimas.

A Lua, Páez a contemplava nas noites insones e agônicas em que buscou sem descanso informações, pistas e ajuda, por todo o tempo em que a aeronave permaneceu desaparecida. Imaginava, no limiar da insanidade, que o filho estaria também olhando a Lua e talvez por esse meio se pudessem comunicar.

Por setenta e dois dias, precariamente instalado no gélido Sul do Chile, onde ganhou o apelido de el padre loco, perseguiu incansavelmente todas as possibilidades e impossibilidades, pedindo ajuda, insistindo, apelando a governos, instituições e particulares.

Recorreu a toda espécie de videntes, adivinhos e sortistas. Seu guru maior era um sensitivo holandês que, pelo rádio, lhe passava orientação (Páez descobriu na região um improvável falante do idioma para servir de intérprete). Chegou um momento em que o bruxo informou não existirem mais sobreviventes, mas o pai não desistiu de sua busca.

Reaproximou-se da ex-mulher para somar forças, interagiu com familiares de outras vítimas, recrutou voluntários, entrou pelas montanhas geladas, consumiu na busca insana quase todas as suas reservas físicas, financeiras e emocionais. Negou-se a aceitar a evidência do pior, mesmo depois de haver o governo chileno desistido, após buscas infrutíferas sob tempo péssimo.

Quase todos o ajudavam quanto podiam, alguns contagiados por sua fé inquebrantável; outros, sem coragem de decepcioná-lo; muitos por pensarem que, com loucos, melhor concordar. E, claro, também não faltou quem procurasse tirar do desespero paterno alguma vantagem financeira.

Carlitos sobreviveu, com outros 15 dos 45 ocupantes do avião, e pôde abraçar o pai. Este, contido a custo no aeroporto militar aonde foram conduzidos os resgatados, viu o filho desembarcar, andando, entre outros sobreviventes – e é nesse ponto que se encerra o relato

O livro é excelente, à parte suas lições e sua voltagem emocional. Se você não é pai (ou mãe), leia mesmo assim. Mas não vai, quiçá, senti-lo por inteiro; talvez pense que o homem estava mesmo doido. Como pensaram quase todos e ele mesmo chegou a suspeitar em alguns perigosos momentos.

De quebra, dica turística: Casapueblo, a incrível “escultura habitável” construída por Páez, que ali viveu e trabalhou até sua morte, é um lugar fantástico, hoje centro cultural, hotel e museu, em Punta Ballena, a uns 12 km de Punta del Este. Lembra da música “Era uma casa muito engraçada...”, de Vinicius e Toquinho? É essa.


Comentários

Alexandre Leal Marques - Funcionário Público (tve-rs) 02.06.17 | 14:24:32
Realmente uma história dramática vivida por todos. Além da "casa muito engracada", em Punta Ballenas, também vale uma visita no Museo Andes em Montevideo.
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