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Edição de sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018.

Primorosa carreira na televisão



Gerson Kauer

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O anúncio nos classificados do grande jornal foi insinuante: “Empresa com 15 anos de credibilidade busca atores e atrizes sem experiência, para trabalhos em novelas e programas de TV no Rio de Janeiro. Garantimos (100%) pelo menos uma participação”.

Por isso, algumas sonhadoras embarcaram em 20 horas de modorrenta viagem de ônibus, ao Rio. Antes emitiram dez cheques (R$ 200 cada), para pagamento da viagem e da hospedagem. O lero-lero dos recrutadores prometia que “o seu investimento de agora será coberto pelos rendimentos de seu futuro trabalho na televisão”.

Na cidade maravilhosa (?), hospedadas em hotel de segunda categoria, em Copacabana, todas foram convidadas a fazerem uma opção: a) fazer nu; b) não fazer nu. Após eram chamadas para a avaliação individual.

Depois de sumariamente constatar que as que respondiam “não”, após rápidas entrevistas eram excluídas dos trabalhos, a Antonieta sentiu-se – digamos – pressionada a entrar na fila do “sim”.

Passou, então, a uma sala onde foi recebida por três homens e uma “supervisora”. Após rápida conversa, a candidata recebeu ordens para ir ao banheiro e tirar a roupa. Assim fez e...foi aprovada!

Após o teste, Antonieta participou, como figurante, das gravações de dois seriados, - tudo num dia. À noite, ela foi transportada por uma van do estúdio até o hotel.

No veículo, foi assediada sexualmente por um dos organizadores. Na manhã seguinte sofreu as consequências: foi afastada da continuidade dos trabalhos – pura represália ao episódio de recusa da noite anterior.

De volta ao Sul, Antonieta tocou uma ação contra os promotores da caminhada artística, buscando indenização pelo assédio sofrido. A contestação sustentou que o teste sem roupas "era necessário para constatar se as candidatas eram tatuadas, ou não - até porque a emissora não aceitava tatuagens, nem marcas na pele".

No depoimento pessoal, Antonieta detalhou: “A gente entrava, ia para o banheiro, tirava toda a roupa e ia para a frente deles. Eram uma mulher e três homens. Um deles dava as ordens: ´Vira de costas, agora´. Tinha um velho de olhos arregalados, parecia um tarado".

A prova oral comprovou a tese da inicial. A sentença dimensionou que “não havia razão para a nudez total, na medida em que a forma física das candidatas poderia ser averiguada, por exemplo, mediante a utilização de roupas de praia".

No tribunal, o relator considerou que "se o intuito era unicamente o exame da beleza corporal das autoras, não havia necessidade de grande contingente de pessoas do sexo masculino no local, até porque a emissora buscava só figurantes..."

A agência de modelos pagou a conta da condenação: R$ 30 mil, mais correção e juros. Estimuladas pelo precedente, outras jovens - partícipes da mesma viagem e optantes da fila do "sim" - estão alinhavando ações semelhantes.

E a rede de televisão rompeu o "convênio" para que a ré seguisse recrutando outras "figurantes para minisséries"...


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