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Sexta-Feira, 15 de Dezembro de 2017
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Senhores advogados, como lidar com a propaganda?



Gerson Kauer

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A propaganda (ruim, isto é quase toda) foi o câncer do século XX e lançou metástases neste. Nada é o que parece. Quando você pensa que está decidindo alguma coisa, tudo já foi decidido por outrem, já foi buzinado na sua orelha. Talvez você não tenha ouvido, mas registrou.

Um publicitário viu um mendigo em uma calçada parisiense, com três ou quatro moedas no chapéu. Pediu licença, pegou o cartaz onde estava escrito “cego” e trocou por outros dizeres. Voltou mais tarde e o chapéu regurgitava moedas e cédulas. O novo cartaz dizia: “É primavera em Paris e eu não posso ver”.

A historinha é ótima e os profissionais da área adoram-na. Mas sabemos – nós e eles – que nem toda propaganda é assim boazinha. Há muita safadeza deliberada. McLuhan não decifrou tudo, nem nos contou tudo o que viu – publicitário competentíssimo e esperto que era.

Vamos ao concreto? Um anúncio de sala comercial que você lê porque busca instalação melhor. Tento mostrar-lhe adiante um anti-anúncio, que infelizmente ninguém me paga para fazer, ao contrário do que pagou a incorporadora pela propaganda.

1. “Hall com pé direito duplo e cafeteria”.

Pé direito alto é bom, desde que tenha também certa amplitude horizontal. Você vai olhar, é a própria sacada de Colombo: um ovo posto em pé. Passo.

Cafeteria é ótimo, se tiver comida de verdade, ou pelo menos uma rubiácea decente. A maioria não tem; só aquelas guloseimas engorduradas de carrocinha e chafé com gosto de pipoca velha. Nem paro, vou reto.

2. “Segurança 24 horas com controle de acesso”.

Hoje, é o minimum minimorum. Mas tem que ver se é efetiva, se os dispositivos instalados são bons e se o padrão geral do prédio comporta um serviço de vigilância atento. Na dúvida, estou fora; menos ruim ser assaltado na rua.

3. “Vagas privativas”.

Olhe bem esse item. Se hoje você tem um Golzinho ou um Fiat minúsculo, tenha presente que pilotar um carrão, ou pelo menos um sedan médio, pode estar no seu futuro.

Aliás, este é um dos pontos mais críticos. É onde o construtor acaba mudando a planta e o memorial descritivo, com sacrifício de espaço – a caixa d’água ficou maior que o previsto, o fundão do terreno não comportou o alicerce calculado, essas coisas.

Se você acha que os engenheiros e técnicos previram tudo, lembre-se daquela rocha indestrutível da trincheira da Anita, que eles só acharam depois de cavar centenas de metros cúbicos. Olho vivo.

4. “Estacionamento privativo para visitantes”.

Quantas vagas? Qual o tamanho? Sua visita pode vir de camionetão ou tem de ser um Uno? Este é outro item onde a mentirinha de mercador (que para eles nem é pecado, é “estratégia de venda”) campeia solta. Olhe tudo, exija plantas e memoriais detalhados – que, lembre-se, só lhe valerão se estiverem incorporados ao contrato.

Fique ligado: você é advogado, como a maioria dos meus leitores, mas lembre-se também do que se passa na casa do ferreiro.

5. “Gerador próprio”.

Nada a comentar, se existir mesmo e estiver bem instalado. Ou, pelo menos, que haja plena garantia contratual. Quem paga? O condomínio? Você?

6. “Sala de reuniões – auditório”.

Ótimo. Sobretudo se o cubículo que estão lhe vendendo for daqueles modernos, em que você precisa tirar o paletó antes de entrar.

7. “Fitness com banheiros e chuveiros”.

Se você faz questão... Sempre haverá uma academia a duas ou três quadras – e a do seu prédio vai pesar muito no preço. E na cota de condomínio! Aliás, você verificou quanto vai pagar todo mês?

Enfim, não estou dizendo para abster-se de comprar um imóvel. Provavelmente, ainda é o melhor investimento. Mas aperte o corretor, exija explicações minuciosas e ponha tudo por escrito, nem que seja no e-mail.

Você é um profissional do Direito, não se deixe enrolar pela esperteza.

Bom negócio.


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