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Sexta-Feira, 17 de Novembro de 2017
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Carta a um (possível) futuro advogado



Se a esta carta sair um pouco torta, meu jovem amigo, releva: há um novo Windows, (“é para sempre”, isto é, até ficar pronto o 11, ano que vem). No Word, o ponteirinho é ainda mais invisível; o sistema tem vida e vontade próprias; corrige Wellington para well, you know, com vírgula e tudo, e tórrido para torresmo – mas não acerta muito em vez de miuto. Sobreviveremos.

 Tu me dizes que vais fazer vestibular para Direito. Não sei se estás certo ou não, até porque não me pedes conselho. Não é a pior escolha; hoje há faculdade até de Politologia (deve haver, pois há quem assine artigos na imprensa qualificando-se como politólogo.) E o nosso é um dos cursos “nobres”. (Meus pais tiveram a ventura de ver formados três filhos no mesmo ano, em Engenharia, Medicina e Direito. Mereceram muito.)

 Fala-te um gato escaldado. A imensa maioria dos bacharéis em Direito vai para a advocacia – advogados eventuais (isto é, meio advogados, espero que me poupes esse desgosto) ou de verdade. Há alternativas: Magistratura, MP, advocacia de Estado, Polícia. Se tiveres estofo, talento e memória para um concurso duríssimo e uma carreira ainda mais difícil, a judicatura é uma bela opção – foi a minha, um dia.

 Mas, por favor, não te metas nela sem vocação e espírito de serviço. Podes ir muito bem, como outros foram e vão, sem esse componente, mas irás, no linguajar gaudério que conheces e aprecias, como gato a cabresto. Se entrares na carreira apenas por ser um bom emprego, não será um bom emprego. Terás só o salário (em tempos, baixíssimo, hoje, razoável) e um poder que toca a onipotência, muito mais do  que o  “mofino e triste poder de meter as pessoas na cadeia”, nas amargas palavras de um grande magistrado francês falando a novos juízes. É pouco, é nada. Se vier a ser essa tua opção, assume-a pensando nos deveres,  não nos poderes. Estes talvez te pesem um dia mais do que aqueles, e não merecerás uns sem os outros.

 As outras opções de carreiras públicas são igualmente gratificantes e nobres – mas nenhuma delas dispensará a disposição de servir. Esse é o tempero da coisa, sem o qual nada irá bem e tu irás muito mal, vendo a vida passar sem saber bem para quê. Evita essa frustração; vai fazer outra coisa da qual gostes mais. Em todo caso, lembra-te de que, se fizeres um bom curso, estarás habilitado à vida, não só a uma profissão.
Sobre o que mais queria falar, a Advocacia liberal, não vejo muito o que dizer-te. Acho que, sendo uma das mais antigas profissões recomendáveis, tende à extinção. Vai-se gradualmente convertendo em uma espécie de SUS judiciário, onde a atividade liberal é restrita e impera uma “lei do mais fraco”.  Ainda há grandes advogados e espaço para outros, mas a competição é feroz (mesmo!) e ninguém é de ninguém. As carradas de bacharéis que as Facilidades de Direito despejam ano a ano são cada vez mais deletérias; as crostas se sobrepõem sem parar.

 Um judiciário lerdo e obsoleto trava os processos, em número, de resto, avassalador. Imagina uma Câmara (com três ou quatro integrantes) “julgando” mil processos por sessão, uma semana depois da outra. A jurisdição artesanal de outrora (e continuo a pensar que não há outra) já não se faz. O volume absurdo repercute na advocacia; desgraçadamente, o despreparo técnico – e por vezes o ético – da maioria dos advogados embaraça a manutenção de um mínimo de dignidade profissional. E não desconsideres a docência, compatível com qualquer dessas escolhas e sumamente gratificante. Deu-me algumas das maiores alegrias.

 Enfim: és jovem e tens que acreditar no futuro, seja o que for que te diga este velho rabugento. Passa, faz um bom curso em uma boa faculdade (é quase tudo) e vem à luta. Bem preparado, rirás das dificuldades e gostarás deste lindo ofício. 


Comentários

Regina Regius - Advogada 19.09.17 | 16:18:08
Perfeito! E oportuno que se fale do vocábulo "vocação", em pleno desuso e desconhecimento, o que torna pobre, muito pobre o contexto jurídico.
Cleanto Farina Weidlich - Advogado 15.09.17 | 14:48:12
Todo brasileiro deveria fazer o curso de Direito, mesmo para deixar de ser incivil e pirão sem sal, como acertava o meu pai Claudio Weidlich, deixar de andar às tontas e ter que engolir as verdades alheias, submeter-se ao discurso não escrito de próprio punho, ao livro não publicado, à aula não dada, e à sentença assinada pelos outros, sem o preparo para recorrer, recorrer, recorrer, ir à luta, travar o bom combate e poder dizer ´não´ aos potenciais clientes envolvidos na Lava-jato...
Luís Ricardo Spaniol - Advogado 15.09.17 | 10:43:43
Às vésperas da minha formatura, meu padrinho (que Deus o tenha!) disse que estava no caminho certo. Perguntei como sabia, ao que respondeu, sempre gostou de ler, não importava o quê, desde que pudesse ler. Aquilo ficou na minha lembrança por anos, até que tive a coragem de encarar a profissão. Hoje, quase 25 anos após a minha formatura e 20 de atividades, vejo que ele estava certo. O caminho é árduo, muitos vezes desanimador, mas não me vejo em outra profissão. Em verdade, é vocação,
Juarez Eduardo Schmitz - Advogado 15.09.17 | 10:10:01
Belo texto ! Retrata fielmente o que de fato ocorre, e aqui estamos nós advogados liberais, que para manter o lugar ao sol, necessário é credenciar-se junto ao "SUS judiciário."
Edson Martins Areias - Advogado 15.09.17 | 10:05:05
Bela mensagem. Há que se saber vencer etapas e ciclos. Pobre dos que enriquecem materialmente abandonando sonhos e vocações. O autor do texto a quem não tive o privilégio de conhecer pessoalmente se revela um homem apaixonado pela profissão. Quando meu filho ingressou no Curso de Direito da UFSC disse-lhe algo símile: o homem(gênero) passa, no mínimo, um terço do dia a trabalhar. Que não seja um tripálio (tripalium) mas um exercício do lídimo direito à felicidade. Parabéns ao Dr.
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