Ir para o conteúdo principal

Edição de sexta-feira, 16 de novembro de 2018.

Pernas maravilhosas



Gerson Kauer

Imagem da Matéria

A fábrica brasileira de calçados deu asas a um italiano. Ele era representante de empresa estrangeira que adquiria produtos fabricados na região calçadista. E assim, passo a passo, em cada uma de suas vindas mensais, ele foi dando palpites sobre cores, opinando sobre modelos, etc. e até autorizado a que pedisse que as funcionárias da fábrica experimentassem os protótipos.

No contexto, ele admirava e apalpava as pernas das trabalhadoras, após o que as convidava para uma esticada. Tinha preferência pela faixa etária dos 20 aos 25, pezinhos tamanho 36 ou 37. Perguntava a elas se gostariam de conhecer Roma e Veneza.

E adorava repetir a cada uma das visadas que "queste gambe sono gioielli meravigliosi". De tanto ouvirem essas frases, as moças descobriram a tradução: "Estas pernas são jóias maravilhosas".

Foi nesse contexto que o italiano ganhou a fama de gringo abusado. A indústria fabricante tinha conhecimento, mas - interessada nas boas exportações - fazia vistas grossas.  Até que ele se engraçou numa trabalhadora casada. Ela deu o estrilo, abandonou a empresa e, uma semana depois, a causa estava na Justiça do Trabalho.

A indústria calçadista se defendeu: “O cidadão em tela não é, nem foi, funcionário da reclamada, mas mero representante de empresa estrangeira, contra quem deverá, na Justiça Comum Estadual, ser aforada a eventual ação reparatória cível, sem nenhuma conotação trabalhista".

Testemunhas deram detalhes e o juiz reconheceu que “o fato de o agressor moral não ser empregado da reclamada é indiferente, pois a empresa deve manter um ambiente de trabalho saudável e respeitoso".

O TRT foi além. Reconheceu que “a reclamante e colegas ficavam sem poder se defender, sob risco de perder os empregos, pois o assediador era pessoa influente e de livre trânsito na reclamada".

A lesada recebeu R$ 20 mil. A empresa perdeu as exportações. O italiano fez viagem definitiva para Milão, sem volta. Como consolo levou, na memória de seu incrementado celular, poses e vídeos dos novos sapatos fabricados e dos respectivos pés que os calçavam, bem como das respectivas “gambe meravigliosi”.


Comentários

Paulo A. P. Cordeiro - Advogado 17.10.17 | 13:15:20

De se parabenizar a decisão judicial, vez que atualmente raros são os deferimentos de dano moral e quando ocorrem, as indenizações são mínimas, muito menores do que a percebida pela reclamante. Talvez seja reflexo da falta de argumentos, mas tanto se repetiu em defesa sobre a "indústria do dano moral" que virou aparentemente argumento válido, especialmente como um capítulo extra do ódio à Justiça Obreira. Como se vê, se era isso, não resolveu a questão do ódio, pelo contrário.

Banner publicitário

Notícias Relacionadas

Gerson Kauer

Perfume de segunda categoria

 

Perfume de segunda categoria

Após presidir a audiência de ação penal relativa a roubo à mão armada ocorrido em uma loja de perfumes, o elegante juiz é surpreendido com a pergunta desferida pela vítima: “Doutor, o senhor tem compromisso para hoje à noite?

Gerson Kauer

Casa de marimbondos

 

Casa de marimbondos

Após a vã tentativa de avaliar uma velha colheitadeira penhorada, o oficial de justiça certifica em minúcias: “Não pude me aproximar da máquina, pois na parte interna do teto da cabine tem uma casa de marimbondos do tamanho de uma caçamba de pampa, tendo este servidor medo de levar múltiplas ferroadas”.

Charge de Gerson Kauer

A política também tem essas coisas

 

A política também tem essas coisas

O José Teutônico um dia tornou-se político famoso. Seu gabinete estava recheado de assessores jovens, bonitos, bem vestidos, perfumados, alegres – às vezes até demais. De repente, ele divorciou-se da esposa socialite. E passou a ser conhecido como “Maninha”. O texto é do advogado Carlos Alberto Bencke.

Charge de Gerson Kauer

O salvamento da justiça

 

O salvamento da justiça

Apesar de advertido pelo colega de jurisdição, o magistrado embriagado lança-se ao rio, a pretexto de nadar. Começa a afogar-se, mas, felizmente, é salvo por circunstantes. Devolvido à terra firme, o juiz comemora em tom etílico: “A justiça foi salva! Homologo o acordo para que surta seus jurídicos e legais efeitos”...

Charge de Gerson Kauer

A primeira vez da juíza

 

A primeira vez da juíza

Literalmente a magistrada foi só, em seu próprio automóvel, para conhecer a casa onde aconteciam os embates de Eros, o deus do amor. Sem demora, numa suíte temática, ela constatou que a vedação acústica tinha problemas. O original caso teve desdobramentos no tititi da “rádio-corredor” da subseção da OAB local.

Charge de Gerson Kauer

A sogra, ou a soga?

 

A sogra, ou a soga?

“A ação de usucapião ajuizada no foro de cidade próxima ao litoral norte gaúcho se referia a uma pequena área de terra, que passou a ser valiosa porque a cidade cresceu para aqueles lados”. O texto é do advogado Carlos Alberto Bencke.