Ir para o conteúdo principal

Edição de terça-feira, 23 de outubro de 2018.

A vergonha é que muda a cultura da corrupção



Chargista Nani

Imagem da Matéria

Por Luiz Flávio Gomes, jurista. Criador do Movimento Quero Um Brasil Ético.
carlos@professorlfg.com.br

Os aparatos de manipulação da opinião pública difundem que a corrupção é um fenômeno cultural e que nada se consegue fazer contra ela. Isso é uma grande mentira, que tem por objetivo preservar a roubalheira generalizada dos grandes poderosos que dominam o País.
 
Todo mundo sabe que a corrupção aqui foi implantada sistematicamente com a chegada dos europeus. No dia em que lancei meu livro “O Jogo Sujo da Corrupção” (maio/17), uma jornalista disse que estava impressionada com a atualidade do tema. Eu observei: desde o ano 1.500 esse tema é muito atual. Falei isso porque se sabe que a corrupção aqui se tornou sistêmica depois das caravelas de Cabral.
 
Todos os países que reduziram drasticamente a corrupção nos últimos 50 anos (Hong Kong, Singapura, Ilhas Maurício, Botsuana, Alemanha depois dos anos 90 etc.) combinaram duas coisas: repressão com educação (ensinando, sobretudo, ética).
 
Mas no plano cultural, além da ética, a grande mudança nos costumes (nas tradições) decorre do sentimento de vergonha. Quando todos nós sentirmos vergonha do “jeitinho” e da corrupção, eles começarão a desaparecer.
 
Foi a vergonha (como diz Kwame Antony Appiah) que historicamente eliminou o duelo (tão corriqueiro nos séculos XVII-XVIII), que libertou os pés das chinesas do grupo han (pés que antigamente eram cruelmente amarrados), que colocou fim na imoral escravidão (sendo o Brasil o último a fazer isso nas Américas, em 1888).
 
Há duas décadas as pessoas ainda fumavam nas mesas onde se comia. Hoje tornou-se impossível acender um cigarro onde estamos tomando refeições. Esse é mais um exemplo de que os costumes se alteram.
 
Não é verdade, portanto, que nada se pode fazer para mudar profundamente a cultura da corrupção.
 
Quando todos sentirmos vergonha da corrupção, da divulgação de fatos que revelem sérios desvios de conduta, do ato da prisão, do processo, da condenação e de eventual encarceramento, com certeza deixaremos de ser o 4º país mais corrupto do mundo (depois da Venezuela, Bolívia e Chade), segundo o Fórum Econômico Mundial (Suíça).
 
É fundamental que o corrupto sinta vergonha de ser corrupto, sobretudo diante dos filhos, dos parentes, dos amigos, dos conhecidos. É o fim da impunidade dessa delinquência nefasta que começa a gerar vergonha.
 
Todos temos que ter vergonha, não orgulho, de dizer que “nós não vai (sic) ser preso”, que sintetiza a cultura perversa da impunidade.
 
A vergonha decorrente do império da lei para todos (isso é o correto numa República) constitui ferramenta muito útil para a prevenção da corrupção.
 
Repressão (iniciada pelo mensalão e pela Lava Jato), educação (ética) e vergonha. Nessa trilogia reside a cura para a cultura do “jeitinho” e da corrupção. Nenhum corrupto pode ter orgulho de dizer que sabe como escapar das consequências da lei.


Comentários

Banner publicitário

Notícias Relacionadas

Quem é a vítima?

“O criminoso é o maior capitalista que se conhece. Mas é perverso. (...) Debater violência urbana pressupõe alguns princípios inegociáveis, como o Estado não ser condescendente com o crime, pois isso é uma questão de humanidade para se poder viver em comunidade”. Artigo da juíza Betina Meinhardt Ronchetti, da 1ª Vara Criminal do Foro Alto Petrópolis, Porto Alegre.

“Sempre se fez assim”

“Ora, quem lê editais forenses? Mas essa é  a pergunta errada. A exata é: quem consegue ler os editais?” Artigo de Adroaldo Furtado Fabrício, advogado e ex-presidente do TJRS.

Civilidade, afinidades, perícias e outros aprendizados

“Nos casos de danos morais resultantes de acidentes e doenças do Trabalho, viu-se que o Direito Civil já trata o subtema responsabilidade civil de modo muito diverso que se ensinava nas faculdades nas antepenúltimas décadas do século passado”. Artigo de Ricardo Carvalho Fraga, vice-presidente do TRT-RS.

A divisão sexual do trabalho e seus efeitos sobre as mulheres

“O compartilhamento de tarefas e a alteração de estruturas de produção como fatores de libertação e igualdades sociais”. Artigo de Marilane de Oliveira Teixeira, economista e doutora em desenvolvimento econômico e social.