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Sexta-Feira, 17 de Novembro de 2017
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O Canal da Nicarágua



Cimberley Cáspio

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Cimberley Cáspio Não tem mais volta. O Canal da Nicarágua é concessão chinesa por 50 anos.

Trump, Putin e o chinesão-chefe olham para o outro lado e assobiam: não sabem do que se trata. Os dois primeiros trocam ditos desagradáveis, mas vão fazendo bons negócios. (Sabemos nós, advogados, que a fronteira entre ótimos negócios e estelionato é difusa. Mas esse é outro assunto).

Da América ao Sul do Rio Grande, ninguém sabe nada; só serve para promover quarteladas e comprar bugigangas.

Pois, quase em silêncio, Rússia e principalmente China estão patrocinando e financiando a construção (já iniciada, sabias?) do Canal da Nicarágua, alternativa para o vetusto Canal do Panamá, única passagem sem contorno continental entre os grandes oceanos. É apenas a duplicação (em termos operacionais, a quadruplicação) da já obsoleta mas ainda importantíssima travessia Pacífico-Atlântico – dominada pelos States, mesmo após a “independência” panamenha, em 1914. Com a remodelação do Canal do Panamá, ora em curso, sua capacidade será ainda inferior a um terço daquela projetada para o novo. Péssima notícia para Estados Unidos.

O barba-ruiva e os bigodudos fazem-se de quero-quero; os incautos das duas bandas não fazem ideia de onde estão os ovos. Já os amarelos, sabe-se, são de muito aprontar e nada falar; fazem cerimoniosa e silente mesura enquanto te enfiam a faca. (Já notaste que falar mal de preto ou de judeu é preconceito, de chinês não?). Os outros dois ficam falando de Estado Islâmico (horror dos horrores), da Coreia e por aí, como se não existisse a sofrida América Latrina.

A construção do novo canal desencadeou resistências enormes, dentro e fora do país que o receberá. Os ambientalistas protestam, sobretudo, contra o comprometimento de reservas naturais e do Lago Cocibolca, a serem atravessados pela obra, aproveitando a maior massa líquida doce da América Central.

Há também justificado temor de submissão a potências e interesses alienígenas. Mas a perspectiva de uma revolução na economia local e do enriquecimento nacional súbito é irresistível. O governo, o grande capital e grande parte da população veem o empreendimento como uma redenção.

Falo com gente que esteve lá, na própria Nicarágua: a população só entende que haverá grande oferta de empregos – ouro puro para eles. Coitados, não têm a menor noção do que os espera. Um país que nunca teve nada, miserável, sempre garroteado pelas piores ditaduras e guerra interna (Somoza, Sandino, etc.), renda ínfima e crônica instabilidade, vai ser inundado de moeda forte, de toda espécie de aventureiros e da praga terrível que é a soldadesca (a Força Aérea russa já ronda a região).

Eles não têm biodiversidade, minerais ou grande território, mas têm a fisiografia que os predestina à fortuna e talvez à desgraça.  É de imaginar-se a magnitude dos estudos preliminares dos quais resultou a escolha do local para a maior obra de engenharia jamais empreendida no mundo. O custo estimado é uma bagatela entre 40 e 80 bilhões de dólares. As repercussões sobre a economia global e a geopolítica estão acima da imaginação.

Mas do Brasil e do Direito, não se fala? Ora, leitor, é disso que estamos tratando. O impacto sobre as Américas será gigantesco; nosso comércio com o Leste vai mudar radicalmente; riquezas enormes (e talvez misérias trágicas) nos advirão. Por outro lado, aquelas ficções que nos ensinaram na Faculdade (Direito Internacional, o Público e o Privado) serão intensamente aplicadas, discutidas e contestadas.

Para os jovens iniciantes, pode haver oportunidades fantásticas. A vida e as profissões jurídicas estão cada vez mais duras; ver adiante pode ser um diferencial decisivo.

Vamos lá, meninos: o Canal da Nicarágua (atenção, Presidente: não confundir com a Guatemala) mudará sua vida. O futuro é de vocês, mas é importante tentar adivinhar como ele será. Quero muito que, quando chegarem lá, meus netos queridos e toda sua geração maravilhosa possam orgulhar-se de haverem participado de algo novo e grandioso.


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