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Edição sexta-feira , 20 de julho de 2018.

A legítima defesa da honra



Por Bernadete Kurtz, advogada (OAB/RS nº 6.937).

Maria Antonia era uma guria inquieta e curiosa.

Aos 10 anos de idade, quando não estava lendo, estava brincando com seu irmão, ou ajudando os pais em tarefas diversas.

Não lhe eram permitidas muitas brincadeiras com outras crianças, a não ser, quando estava na escola, fora do controle materno.

Com dez anos, ela ainda não sabia da existência de Albert Einstein, e muito menos de qualquer frase sua.

Quando mais crescida, e apresentada ao gênio, ao se deparar com uma frase sua que dizia: “A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original“.

Soube de imediato que aquilo lhe havia acontecido aos dez anos de idade!

Sua mente não fora apresentada a nenhuma nova ideia, de fato, mas presenciou e vivenciou  um fato que lhe marcou para sempre e sem sombra de dúvidas, influenciou  na sua forma de se portar perante a vida.

Naquela época, era usual as famílias sentarem nas calçadas no verão;  enquanto as crianças andavam em volta, os adultos mateavam e jogavam conversa fora.

Numa tarde, ali estavam todos distraídos naquela rotina descompromissada, quando passaram dois vizinhos, um muito gordo e alto, o outro muito magro e baixinho: eram compadres, e sempre estavam vestindo pijamas iguais, azuis, com risquinhas brancas - o que Maria Antonia achava estranho... não iam dormir!

Eles passavam ali todos os dias, na mesma hora, e iam conversando até o boteco da esquina, onde tomavam um traguinho e voltavam para suas casas, que eram lindeiras. Naquele dia a rotina foi quebrada!

Ao voltarem do boteco, parecia que vinham discutindo, e ao chegarem bem na frente da casa de Maria Antonia, o compadre baixinho e magrinho, tirou do bolso do pijama um revólver bem pequeninho, prateado, e atirou na cabeça do  gordo, que desabou na hora !

Foi um gritedo, as mães recolheram as crianças, e os pais foram tentar acudir!

O compadre gordo morreu, e o magrinho foi preso, mas não ficou muito tempo na cadeia; falavam que um advogado o soltara, num processo muito rápido (antigamente era assim...) por causa de uma tal de legítima defesa da honra...

Maria Antonia não sabia o que era aquilo, mas os vizinhos comentavam que o compadre gordo, andava se engraçando com a comadre, mulher do magrinho...

Aquilo nunca saiu da cabeça de Maria Antonia: como alguém pode matar outra pessoa, em nome de sua honra?

E aquele fato, fez com que Maria Antonia nunca mais fosse a mesma, pois pensava e pensava naquilo. Com o passar dos anos, ela foi entendendo o que era (in) justiça... e acabou advogada!

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Serviço Espaço Vital: "A Arte da Palavra 2017"

Ontem (9) foi o lançamento, na 63ª Feira do Livro, em Porto Alegre, de "A Arte da Palavra 2017", que representa a conclusão da Oficina de Criação Literária Alcy Cheuiche e Paulo Flávio Ledur. No livro estão quatro contos de cada um dos 10 alunos da Oficina.

Bernadete Kurtz – que de vez em quando aqui comparece com os seus textos jocosos e/ou veementes e com suas posições de advogada intimorata - disse ao editor deste saite que “nunca pensara em escrever nada, além das duas muitíssimas peças processuais e de algum trabalho jurídico e textos no Espaço Vital”.

E fez um breve relato:

Mas por estas coisas que acontecem nas nossas vidas, acabei numa oficina literária. Li muito, toda a minha vida, pois comecei aos cinco anos, quando aprendi a entender na Seleta em Prosa e Verso. Descobri agora, aos 70 anos, que ler e escrever são um ótimo calmante e lenitivo contra todas as dores”.

Seguramente, por saudade do Reginald Felker, seu companheiro de décadas, que nos deixou em 26 de abril deste ano.


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