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Edição de sexta-feira, 19 de outubro de 2018.
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Sic vos non vobis...



Sic vos non vobis nidificatis aves;
Sic vos non vobis vellera fertis oves;
Sic vos non vobis mellificatis apes;
Sic vos non vobis fertis aratra boves.

(PUBLIUS VERGILIUS MARO, 70-19 aC)

Sei, de latinório nos basta e sobra o dos nossos juristas. Mas estes vetustos versos nunca terão a mesma sonoridade, sabor e encanto em qualquer outro idioma.

Não custa tentar: os bois que aram a terra não desfrutarão da colheita; os ninhos tecidos pelas aves não são só para elas; ovelhas produzem lã que não servirá para o seu próprio agasalho; não é para deleite seu que as abelhas fazem o milagre do mel...

Quando Vergílio escreveu seus versículos célebres, queria expressar sua indignação por ver que um impostor levara a glória e o prêmio por um escrito dele. Ao revés do que seria fácil pensar, o plágio e o furto intelectual não foram criados pela rede mundial, que apenas os facilita; são tão velhos quanto os outros vícios do homem, muitos deles amplificados e banalizados, isto sim, pelas facilidades de reprodução e de comunicação.

O poeta estava plenamente justificado na sua indignação. Nada nos pertence tão absoluta e genuinamente quanto a nossa criação, o produto do engenho e arte que exercitamos para introduzir algo novo, se possível belo, na mesmice deste nosso mundo feio. Essa é a única ação humana que se pode talvez comparar ao empreendimento de conceber e parir (que nós homens tanto invejamos, disfarçando o despeito sob a couraça do machismo e da falocracia).

Quem já sofreu esse tipo de esbulho – cada vez mais generalizado e descarado – conhece a revolta que ele causa. Quem se apropria do produto da inteligência e da criatividade alheias subtrai um bem maior do que a mera coisa alheia móvel do Código Penal, que em regra pode ser substituída e apenas circunstancialmente (não intrinsecamente) pertence ao dono. O que alguém acrescenta ao mundo é seu no mais exato e completo sentido, para sempre, por mais universal que se torne o seu domínio, como o da poesia de Publius Vergilius.

Quando o ainda desconhecido vate romano viu um falsário engrandecido e recompensado pelo que não fizera nem lhe pertencia, expressou sua indignada inconformidade pelo meio que lhe era próprio, a arte da palavra. Os quatro versinhos, como a Eneida e o restante de sua obra, atravessaram os milênios e nos chegam intactos; o nome do impostor apenas ultrapassou o seu tempo à sombra dele, ao modo de parasita e sem outra referência que não essa, a da sua infâmia. A História fez justiça, como faz quase sempre.

(Às vezes, demora. Norman Shumway desenvolveu em Stanford a teoria e a técnica do transplante cardíaco, experimentou-o em animais e chegou a anunciá-lo em humanos. Mas o esperto e performático Christiaan Barnard, que chupara sua pesquisa, tomou-lhe a frente e colheu os louros, ganhando notoriedade, a capa da Time e até um rumoroso affaire com uma diva do cinema).

Ainda assim, por muito que nos encante a sutileza e genialidade do poeta em sua reação à vilania, o episódio comporta outra leitura, talvez mais generosa e positiva, para o sic vos non vobis. Escassa é a valia do que construímos para nós, ou só para nós.

Como a das abelhas e a das aves, a obra humana só adquire transcendência quando influi sobre outras vidas e destinos, quando contribui para algum tipo de riqueza externa ao seu autor. O enriquecimento deste, econômico ou outro, justificado e legítimo que seja, não projetará efeitos para além de duas ou três gerações.

Não importa qual seja essa obra. Cada ser humano pertence à humanidade e ao universo, deles depende e para eles vive; terá o tamanho e a importância que tiver sua contribuição. A serviçal que limpa teu banheiro (não para ela!), o médico que te mantém vivo, até aquela atendente chatíssima que “vai estar passando” a tua ligação, são mais importantes para ti do que os potentados que frequentam a coluna social (e tão facilmente resvalam para a policial).

A consciência de que somos parcela de uma integralidade, de que nos afeta o que os outros são e fazem, assim como nossas ações e modos importam aos demais seres humanos, à vida e à natureza toda, representa a garantia única de nossa humanidade. Como todos os outros seres, vivos ou inanimados, podemos ser esmagados pelo Universo; a diferença é só essa, um pobre consolo: nós sabemos que ele nos esmaga (Blaise Pascal). Temos a bênção, os tormentos e o compromisso da consciência.

Nosso mundo contemporâneo, midiático e oportunista, valoriza o momento e a aparência acima da essência e da perenidade. A onipresença do fast food cultural e da novidade a todo custo repele a noção de valores mais duradouros e os postulados da diversidade, da tolerância, da convivência dos opostos. A ditadura da propaganda, da comunicação massiva e do politicamente correto, dispensando-nos da racionalidade, a todos nós reduz e imbeciliza, como recentemente advertiu Umberto Eco.

Não somos Vergílio e não temos o seu estro. Nossa marca no Mundo não vai durar os mais de vinte séculos que a dele já perpassou. Mas, enquanto estamos aqui, temos a oportunidade e o dever de contribuir e reconhecer a contribuição alheia.

Não ferir a ninguém, viver honestamente e dar a cada um o que é seu, antes de ser uma regra moral e a pedra angular da Justiça, é um imperativo de sobrevivência. Essa pode ser, ao fim e ao cabo, a Ética toda, para além das religiões, mitos e filosofias.


Comentários

Cesar A. Hulsendeger - Servidor Público 22.02.18 | 18:33:09

Alterum non ledere, honeste vivere e suum quique tribuendi. Mesmo depois de 30 anos ainda recordo com certa emoção e carinho esse brocardo ensinado pelo saudoso professor Milton Carlos Loeff, da cadeira de Direito Romano da Casa de André da Rocha. Como disse o professor Fabrício, resume a Ética, pura e simples. Que anda esquecida, quando não vilipendiada. O, tempora; o, mores!

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