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Edição sexta-feira , 10 de agosto de 2018.
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A fábrica de salsichas



YouTube – Festa da Salsicha

Imagem da Matéria

Fomos todos surpreendidos pelo que aconteceu com alguns torcedores que foram acometidos por enfartos em pleno estádio Beira Rio. Já havíamos comparado as atuações do nosso time com um eletrocardiograma, repleto de altos e baixos, chegando a quase linha reta do gráfico, situação que afasta a esperança de vida.

Meu primeiro sentimento foi o de inveja, evidentemente não me refiro à moléstia que provoca a morte ou dano irreversível no sistema circulatório.

Sou de um tempo em que nossos avós ou pais, quando diagnosticados como portadores de moléstia cardiovascular, recebiam uma sentença de morte. As restrições para a vida plena eram incontáveis. Hoje, por obra dos avanços da medicina e da tecnologia a ela aplicada, o coração mata muito menos do que já matou e, principalmente não limita o viver.

Em primeiro lugar, devo gravar o meu profundo respeito ao torcedor que faleceu e aos seus familiares. É a ele que com pesar dedico esse texto.

A inveja saudável, diz com a capacidade que a quase totalidade dos torcedores têm de acreditar na magia do futebol. Trata-se de uma alternância cíclica entre a alegria que leva ao extravasamento e a tristeza que conduz ao choro.

O clube passa a ser uma razão de existência, mobilizando energia e expectativas. A lógica, expressão da racionalidade, dá lugar a uma misteriosa esperança de que quase sempre, o impossível é possível.

Há, na base desse comportamento de torcedor uma crença, uma fé, inabalável pelas evidências.

Existe um sentimento potencializado pelo coletivo, teorizado pela física quântica como energia materializada, que contamina o ambiente e no entender de muitos, induz ao resultado.

Bem, mas não é isso que proponho para à reflexão. O que importa, a tanto, é a fé do torcedor.

A ele pouco importa se as finanças do clube estão combalidas, arruinadas por fracassadas gestões. Se as contratações foram corretas ou não, se o técnico escala ou arma bem a equipe. Ele acredita e por acreditar sofre e vibra.

A impressão é de que quanto maiores as dificuldades e os sofrimentos, mais gratificante é o sabor da conquista.

Lembro muito bem do tempo em que não me importavam as declarações dos cartolas, quando sequer sabia qual o papel dos mais de 300 conselheiros. Sendo que a primeira ideia sobre ele foi a de que se tratava de um grupo harmônico que se reunia para somar sugestões positivas.

Imaginava que os dirigentes eram desprovidos de vaidade e de egoísticas artimanhas eleitorais, pois o clube seria a razão de tudo.

Atribuo essa visão ao lirismo próprio da paixão.

Há 30 anos fui apresentado para o que era invisível para mim. Não colhi uma boa impressão, pois como em quase tudo, imperam as disputas, a inveja, as armadilhas, a ganância, enfim tudo aquilo que é paradoxal a paixão. Em razão disso, quando sei de alguém que morreu ou sofreu alguma sequela causada pela emoção em uma partida de futebol, além da solidariedade, sinto pena, mas pena de mim e de tantos outros que perderam a fé.

Em síntese, quem sabe como são fabricadas as salsichas, não come salsicha.


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