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Edição de sexta-feira, 19 de outubro de 2018.

Condenação de um juiz nos Estados Unidos por aplicar pena leve...



Chargista Duke

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Por Antonio Silvestri, advogado (OAB-RS nº 17.672)
asilvestri@terra.com.br

Na Califórnia (EUA), um juiz de direito foi deposto por ter condenado um agressor sexual a uma pena considerada muito leve. E de quem partiu a iniciativa? Da população! Lá, a democracia tem espaço.

Já aqui, neste país tropical, abençoado por Deus, não um juiz, mas um ministro da Corte Suprema solta um criminoso por dia (na média) e fica tudo por isso mesmo. Ele solta amigo, solta afilhado, solta parente do amigo, solta esposa do afilhado - é uma verdadeira fábrica de solturas.

Mas o povo estufa-se em delírios, dizendo que se vive em uma democracia.

Democracia? Será? Os gregos que a criaram há milênios devem estar esperneando na sua santa paz celestial. Com certeza, essa espécie de poder que emana do povo (demos + kratos) não estava na lista das ideias dos conterrâneos de Platão, Sócrates, Aristóteles e companhia.

A nós, operadores do Direito - sejamos advogados, promotores, magistrados - envergonham-nos tais atitudes. Emociono-me ao assistir a juízes, promotores, policiais na sua luta, sua dedicação, seu esforço, não raro sem condições apropriadas e às vezes à míngua de recursos físicos, para chegar ao ponto de colocar as mãos em incontestáveis bandidos, ladrões, assassinos... - ás vezes, confessos).

Os atos delituosos desses bandidos matam crianças de fome; deixam doentes em corredores de hospitais; geram insegurança pública, assistem a falta de vagas em escolas, nada fazem ante a repetição de acidentes em pseudoestradas - e, no entanto, horas depois, num simples canetaço, alguém que se julga habitar em andar superior ao de Jesus Cristo mandá-los para a rua desfrutar de plena liberdade sob o argumento de que não cometeram crime mediante violência.

Seria importante tornar público qual o conceito de violência para quem se ocupa de soltar bandidos com tanta facilidade.

Será que matar crianças de fome, doentes mediante tortura em filas e por aí são crimes leves?

Sou um simples e anônimo advogado. Mas, a quem eventualmente vier a ler-me, confesso que estou pensando em entrar em depressão.

Perdoem-me a ironia, mas o que anda acontecendo em nosso país, partindo lá de cima, lá das alturas supremas, é coisa que conduz à depressão. Com que espécies de conceitos estamos vivendo? A um operador do Direito que no dia da sua formatura jurou advogar com o intuito de andar de braços com a justiça, o que lhe pode restar de esperança?

Sinceramente, não consigo ver à minha frente outro caminho que não o de ingressar no abismo da depressão. Há décadas exerço meu direito de cidadão. Afinal, sou povo e é do povo que emana o poder em uma democracia, não é mesmo? Mas o que consegui até aqui? Talvez um olhar de pena lançado pelos que me cercam. Sinto-me tal qual o búfalo africano que, atacado por uma leoa, vê toda a manada sair em disparada.

É, se os búfalos tivessem a consciência da força da sua união perante uma única leoa, insurgir-se-iam (unidos) contra ela e a derrotariam. Mas eles não sabem do que são capazes. E, por isso, correm. E o atacado que se dane! Sinto-me esse búfalo.

Sou apenas um sofredor por ter tido o azar de alcançar a consciência. Sozinho, não sou nada. E o poderoso Supremo continuará soltando bandidos independentemente da minha luta.

Aqui, é Brasil; não é Califórnia. Lá, vive-se uma democracia. Aqui, pensa-se que se vive numa democracia. Lá, o povo faz. Aqui, cada um espera que o outro faça.


Comentários

César Augusto Hülsendeger - Servidor Público Estadual 08.06.18 | 10:59:33
Esse juiz foi eleito. A população se utilizou do recall. Vamos eleger juízes no Brasil? Sério? Cuidado com o que pedes aos deuses; eles podem te atender.
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