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Edição de terça-feira, 16 de outubro de 2018.

´Paga o churrasco ou vai preso!´



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Por Carlos Alberto Bencke, advogado (OAB-RS nº 7.968)

Ser missioneiro no Rio Grande do Sul é mais ou menos como ser gaúcho no Brasil: sirvam nossas façanhas de modelo. E este fato se desenrolou em uma importante cidade das Missões, aliás, a mais importante dentro deste que poderemos chamar de um Estado dentro do Rio Grande.

Dois torcedores fanáticos por Grêmio e Internacional eram, também, cônsules naquela cidade. Eram os melhores amigos um do outro, apesar desta abissal diferença. Viviam às turras quando se tratava de futebol e sempre apostavam isto ou aquilo nos clássicos Gre-Nais.

Na década de 1970, depois dos 12 títulos do Grêmio em 13 anos, começou o domínio vermelho em títulos, inclusive brasileiros, até que em 1977 Hélio Dourado e Telê Santana formaram um time gremista que viria a ser campeão gaúcho e até beliscou o nacional daquele ano.

A fórmula do campeonato gaúcho era complicada, mas num dos Gre-Nais decisivos bastava um empate para o Inter entrar com grande vantagem para os jogos finais. Foi o famoso clássico apitado pelo melhor árbitro da época, Agomar Martins, que, num determinado momento – bem no finzinho – marcou uma falta contra o Grêmio e todos pensavam que seria dentro na área.

Foi aí, inclusive, que o famoso árbitro levou um peitaço do grande capitão tricolor, Oberdan, mas os personagens juram que foi um choque natural.

Sem árbitro de vídeo, sem câmeras por todo lado e sem comunicação por rádio, a dúvida permaneceu, mas Agomar marcou fora da área, atendendo uma mímica feita pelo bandeirinha dizendo que não fora dentro da área. Grêmio vencedor do clássico por 2 a 1 (depois viria ser campeão gaúcho de 1977).

Os dois ferrenhos adversários e grandes amigos haviam apostado um churrasco para tantas e tantas pessoas, todos também muito amigos. No entanto, diante do impasse do jogo – pênalti ou não – o perdedor colorado sentenciou: “Não pago, fomos roubados”.

Entre os convidados estava um dos juízes de direito da comarca que, mesmo sendo torcedor do Inter, resolveu tomar severa providência e expediu mandado judicial para que o oficial de justiça intimasse o cônsul colorado a comparecer na sala de audiências às tais horas do dia “x”, sem especificar porque o convocara, mas, para se prevenir, deveria estar acompanhado de advogado.

Compareceu o indigitado perdedor e, depois de um chá de banco interminável, sentou-se no banco dos réus, com a presença do Ministério Público e até de um atento e silencioso brigadiano encarregado da segurança.

Foi severamente comunicado pelo juiz que aquela audiência estava tratando de um caso muito grave. Após as advertências de lei e de praxe, com o réu lívido de medo, o magistrado, circunspecto, concluiu: “O senhor está em dívida com seu melhor amigo e se não pagar esta conta será execrado por seus amigos e pela comunidade jurídica em geral”.

E bateu o martelo, encerrando a audiência, para alivio do devedor. Todos os amigos que estavam escondidos numa outra dependência do fórum ingressaram na sala de audiências e, às gargalhadas, marcaram o churrasco para o dia posterior.

O juiz, naturalmente, estava lá.


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