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Edição de sexta-feira, 16 de novembro de 2018.

O juiz dono da bola



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Por Carlos Alberto Bencke (advogado – OAB/RS nº 7.968)

O magistrado era ruim de bola; o promotor e o prefeito, muito bons. O promotor ficara famoso porque - antes de fazer concurso - jogara num time de futsal e tinha um potente chute de canhota, que os saudosistas comparavam com os de Rivelino

O prefeito quase fora jogador de futebol profissional, inclusive pretendido pelo Inter, mas ficara na cidade porque já era professor no ginásio local – e viver do esporte não garantia futuro.

A reunião futebolística acontecia às terças-feiras, depois das seis da tarde e agrupava também serventuários do fórum, advogados, políticos e figuras carimbadas dali. Num início de noite quase hibernal, já prevendo os poderosos arremates do “parquet”, o juiz determinara, antes de começar a brincadeira: “Não vale bomba!”.

Jogo tranquilo, até que a bola ficou à feição para o promotor. Veio rolando na direção de seu pé esquerdo, pronta para um pontapé enérgico, implorando um canhotaço mortal. E não é que...

...Sim, quem ficou na frente dele foi o juiz, conhecido por atitudes heterodoxas nos joguinhos das terças – mas respeitado porque, afinal, era o honorável magistrado da comarca de entrância intermediária.

Voltando ao já preparado chute sinistro: o representante do Ministério Público não titubeou e o canudo partiu fortíssimo, com endereço certo. Mas, entre o promotor e a goleira, estava o magistrado, que foi duramente atingido em seus países baixos.

Logo atendido, feitas as flexões de praxe para as ocasiões doloridas, o juiz recobrou-se, fitou o promotor com olhar de poucos amigos, ergueu a bola como se estivesse empunhando um troféu, não disse uma palavra e foi saindo da quadra.

Político jeitoso, o prefeito interveio: “Excelência, o senhor vai embora? Lembro apenas que a bola não é sua”.

O magistrado, então, virou-se para os atônitos integrantes da cena e vociferou com arrogância: “O jogo está violento, eu disse que não valia bomba. Então decido: a bola está confiscada pela Justiça”.

A comarca nunca mais teve jogo às terças-feiras.


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