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Edição de sexta-feira, 16 de novembro de 2018.

Platão e as eleições



Por Adroaldo Furtado Fabrício, advogado, jurista, ex-presidente do TJRS

Conta-nos Platão de um homem que, pela vida toda, confinado com outros em uma caverna escura, vendo do mundo externo apenas as sombras projetadas em uma parede, consegue um dia fugir e ver os milhões de coisas sequer imaginadas. Retornando anos depois à sua toca, enfrenta a incredulidade e desconfiança dos demais confinados, que, por louco e mentiroso, acabam por matá-lo.

Trata-se obviamente de uma alegoria. O ônus de conhecer e ver adiante da mediania, de compreender o que mais ninguém entende, é insuportavelmente pesado. Os sábios, os iluminados e os mais lúcidos devem sempre pagar o preço de sua imprudência, geralmente alto. Os santos – outra espécie de sábios – também.

Pensará o leitor: Platão numa hora dessas? Ora nada pode ser mais atual e contemporâneo. Um dos maiores perigos que o ser humano corre, hoje como sempre, é o de pensar diferente de qualquer forma em relação à manada circundante. Seja qual for a natureza dessa diferença, ele será visto como louco ou mentiroso e inevitavelmente rejeitado.

Escrevo a propósito de um louco que anda propalando saber mais e pensar melhor do que todos. Poderia ser o próprio Platão ou algum discípulo seu igualmente audacioso e capaz de ver à frente, ou uma improvável reencarnação sua. Mas, cuidado! Não há tantos Platões a andar por aí.

Pode ser que ele seja apenas insano e perca seu tempo quem buscar algum sentido no que ele diz e faz. Como perceber, em seu tempo, a diferença entre Buda, Cristo ou o próprio Platão e o sujeito que entrou em delírio perene e inventa seu próprio Mundo? Quem tiver a receita, tem aqui um aluno disposto a aprender.

Penso que só há uma chave para decifrar essa charada. É acreditar no maluco até que ele comece a rasgar dinheiro ou a falar com as pedras. Ouvi-lo, estimulá-lo, talvez louvá-lo para ver até onde irão sua sabedoria e sua insanidade.

Escrevo ainda sem saber (ou sabendo na medida em que todos sabem) quem ganhou o segundo turno. Só posso fazer votos de que Bolsonaro ou Haddad, Sartori ou Leite sejam maiores do que até aqui pareceram. Nenhum deles, por certo, será o iluminado capaz de ver aquilo que mais ninguém enxergou ou entendeu.

O milagre fica para outra vez. Esperemos que não seja também um dos que mataram o sábio. Há erros e sandices de todos os calibres e para todos os gostos; há mais mentiras no Facebook do que nas pinturas rupestres de nossos mais antigos antepassados; do que nas mensagens dos loucos mais varridos e dos políticos mais indecentes.

Isso posto, convido-os a seguir com a vida, sem mais rancores e ressentimentos e sem valorizar demais a fala mansa ou irada dos comícios e dos programas eleitorais “gratuitos”, que custam os olhos da cara aos contribuintes. Temos agora dois anos de trégua para trabalhar e crescer sem perturbações. Felizmente, não se realizou nem se vai realizar o sonho de um velho tio meu, que nunca concorreu a nada mas só respirava política: “Eleição devia ter uma por mês”.

Na verdade, ninguém é ingênuo o bastante para confiar nas promessas e armadilhas eleitorais, mas não esqueçamos que do Mundo só conhecemos as sombras por ele projetadas. E dos políticos, porque conceitualmente facciosos e no geral incultos, não podemos esperar mais do que isso.


Comentários

Edni De Andrade Arruda - Advogada 26.10.18 | 15:35:40

Um alívio, um conforto, ler texto tão lúcido. Advogada veterana, ando faminta de racionalidade em tempos crispados. Obrigada, dr. Adroaldo.

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