"Quero falar com ´O ´ Comarca!"...


Athos Gusmão Carneiro - um dos mais renomados processualistas do Brasil - faleceu anteontem (2), foi sepultado na quinta-feira (3) e deixou um vazio insubstituível. Ficou conhecido nacional e internacionalmente como doutrinador de Direito Processual Civil. Suas obras foram sempre reeditadas, com minuciosas atualizações, constituindo-se como referências para estudiosos e profissionais.

No início do ano passado, Athos passou a escrever em forma de contos alguns fatos de sua trajetória como juiz do interior do RS, carreira que culminou no STJ, após passar pelo TJ gaúcho. Foi aí, em 1977, que o editor do Espaço Vital conheceu o magistrado brilhante, o homem afável, o juiz que gostava de receber e conversar com advogados, a quem individualmente costumava tratar como "meu bom doutor".

Um dos contos de Athos Carneiro foi sintetizado, em 3 de maio de 2013, pelo Espaço Vital, poucos dias depois do lançamento de "Causos de São Chico e Outras Querências" (Editora Gazeta Jurídica, 154 páginas). Vale a pena ler e/ou reler.

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"Eu quero falar com ´o´ comarca!"...

Década dos cinquenta. O juiz de Direito em São Francisco de Assis era o iniciante Athos Gusmão Carneiro.

Certa tarde chegou ao foro um homem de jeito bem gaúcho, já de certa idade, semblante sério, palavras poucas. Queria falar com "o comarca", a quem pediria um conselho.

O Dr. Athos se apresentou:

- Pois não, sou o juiz. O que o senhor deseja?

O vivente olhou para o jovem de 25 anos à sua frente, magro, sem gravata, aparência pouco condizente com a imagem usual de um magistrado. E indagou:

- O senhor é o promotor público?
- Não! Sou o juiz.
- O juiz municipal?
- Não, o juiz de Direito.
- ´O´ comarca?...
- Isso mesmo, sou o juiz da comarca.
- Então me desculpe, mas meu assunto é um problema sério, de família e o senhor é ainda meio guri. Pensei que ´o´ comarca fosse de mais idade. Passe bem!

Montou, deu de rédeas e foi embora.