O sexo e a vizinhança


Quatro ou cinco vezes por mês, em um prédio da Independência, ouve-se o eco de tapas seguidos de gemidos altos. Os vizinhos já sabem que, pelas próximas duas ou três meias-horas, haverá muitos gritos decorrentes de cenas explícitas de sexo. Afinal, a condômina pratica suas atividades rente à janela, aproveitando ao máximo as vindas do companheiro, tripulante de empresa aérea, que costuma aportar no Portinho, uma vez por semana.

Fetiche, voyeurismo, descuido, paixão ou apenas e principalmente prazer – não se sabe. O inegável é que logo após os primeiros sinais, o interfone toca. É algum vizinho reclamando. Tanto a condômina fez, tanto o parceiro faz, tanto os vizinhos reclamaram... que o assunto chegou a Juízo.

Os advogados sustentaram teses antagônicas. O do condomínio escreveu que “são problemas de barulho e comportamento inadequado”. O da ré disse que “o que cada um faz dentro do lar está fora de questionamentos e julgamentos”.

A juíza intimou a ré e o representante legal do condomínio para a audiência de tentativa de conciliação. Concitou os litigantes a concessões recíprocas. Sem sucesso.

A prova oral – todos condôminos e, como tal, contraditados – confirmaram as orgias amorosas e rumorosas no recôndito da unidade barulhenta.

A sentença definiu as relações sexuais como “tema polêmico”, admitiu que “ninguém vive em mosteiro”, mas reconheceu que “do lado da contígua parede, ou no andar acima, ou no pavimento abaixo moram crianças pequenas e idosos”. E fixou a indenização em “simbólicos R$ 2 mil”, concitando as partes “à tolerância e à moderação, pelo bem social”.

Há recursos de ambos os demandantes ao tribunal. O relator já recomendou atenção ao estagiário-chefe que fará o projeto de voto: “O caso vai da garantida privacidade aos lamentáveis exageros, o que requer cuidado”.

A controvérsia ainda será objeto da próxima reunião da assessorcracia.