O sapo advogado


Numa das seccionais da OAB pipocam reclamações sobre a propaganda advocatícia das performances e badalações de determinado profissional da advocacia. O presidente da entidade e seu assessor mais próximo se conectam no Youtube e, perplexos, veem hilárias cenas gravadas.

Entre elas, a da festa natalícia do advogado, e seus quase 400 convidados. Tem também a da propaganda institucional do escritório, em que estagiárias, assessoras e jovens advogadas – todas vestindo pretinhos básicos – entoam, em coral, loas ao chefe.

Em louvor ao homenageado, escutam-se – com a moldura de sonoros acordes – caprichados versos que retroagem às primeiras incursões dele nos bancos universitários. De relance, uma moça de pernas cruzadas, exibe bem torneadas coxas.

O assunto ricocheteia na “rádio-corredor” da Ordem, cujo locutor titular – de voz empostada – é criativo ao comparar os fatos reais com a fábula “O Sapo e o Boi”.

Narra que “no ano 555 antes de Cristo, o fabulista Ésopo, grego de nascimento, dá a conhecer a biografia de um sapo advogado - apelidado Lawyer Frog - que coaxa ao lado do rio, quando vê um boi se aproximar para beber água”.

Invejoso, o batráquio arrota aos amigos que “breve vou ficar do tamanho desse bovino, passando a ser, em visibilidade, o principal espécime do reino animal – e por isso vou sortear um automóvel grátis, por ano, entre vocês”...

Todos duvidam, mas o sapo começa a inflar o pescoço e as bochechas, mesmo ante o desdém do pato, do rato e da capivara. E o Doutor Frog vai aumentando de tamanho. Em vão, uma hiena ainda suplica: “Para com isso!

E tanto o sapo estufa a barriga e o peito, que estes explodem como balões de gás. Ocorre, então, o óbito.

Uma ativa conselheira da Ordem dos Advogados avalia, extra autos, “tratar-se de um conjunto das mais indignas propagandas advocatícias que temos visto em todos os tempos, além de claro assédio moral contra as pobres empregadas convocadas a recitar rimas em louvor do chefe”.

- É nisso o que dá não se conformar com o que se é... - avalia, cauteloso, o presidente da corporação advocatícia, determinando que “se faça sigilo no processo ético” – afinal, o estatuto canhestro prevê, corporativamente, a tramitação sem publicidade.

Se o caso, um dia, chegar ao Supremo, ali talvez o decano Celso de Mello lembre a todos que “os estatutos do poder e da ordem, em uma República fundada em bases democráticas, não podem privilegiar o mistério, nem legitimar o culto ao segredo”.

Só assim, talvez no futuro - se Madame Tartaruga deixar – tenhamos a confirmação do nome civil do sapo brasileiro.