PrĂªmio para o magistrado


Por Carlos Alberto Bencke, advogado (OAB-RS nº 7.968)
bencke@benckesirangelo.adv.br

O advogado, em cidade pequena na região da fronteira do RS, fez fama por ser bem-falante, com sotaque gaúcho acentuado até para dar ênfase às suas excelentes tiradas de humor, mas todas ligadas à técnica do Direito.

Processo importante que surgisse na cidade apontava direto para o seu bem montado escritório, localizado no centro da cidade. “O Doutor Criávalo resolve” - aconselhavam todos.

Além do Direito, o Doutor Criávalo possuía cultura invejável em filosofia, sociologia e devorava livros. Por isso era muito procurado pelos intelectuais da cidade, para conversas sobre variados temas que iam desde a prisão do ex-Presidente até o Mito da Caverna de Platão, sem deixar de dar uma passadinha pela seleção brasileira em Moscou.

O juiz recém-chegado foi informado sobre tal fama pelos funcionários do fórum. Todos elogiavam não só a estrutura sólida da cultura do causídico, como o fascínio irresistível, seu carisma e simpatia.

Com o tempo, o dr. Criávalo foi espraiando seus negócios, mercê de suas constantes viagens ao exterior, de onde trazia novidades e as implantava na cidade. Foi assim com um bem montado restaurante com especiarias de várias partes do mundo, que tinha no cardápio um trivial, porém irresistível, leitão recheado.

Era o prato mais solicitado e, inclusive, levado para casa inteiro para alimentar as famílias reunidas aos domingos.

O magistrado ainda não conhecia o advogado famoso, mas já sabia da fama do leitão. E não teve dúvida para o almoço do domingo, pois receberia a visita da noiva com casamento marcado e seus pais. Pensou no leitão e dito e feito. Levou o bicho recheado para casa e fez a maior propaganda para suas visitas ilustres.

Todos reunidos, mostrando suas habilidades de apreciador e entendedor de boas mesas, o juiz pôs-se a trinchar o leitão quando - surpresa das surpresas – percebeu, misturada ao suculento recheio, uma tampinha de lata de cerveja, daquelas que as pessoas recolhem para fazer benemerência.

O juiz encheu-se de brios - pois estava na presença da noiva e dos pais dela e, afinal, era a autoridade judiciária máxima da cidade - e foi, bufando, ao restaurante do famoso advogado. Lá chegando, encontrou-o regalando-se com um leitão e cercado de amigos e pessoas que o paparicavam diuturnamente.

O magistrado-cliente reclamou em altos brados, mostrando a tampinha ainda lambuzada de recheio.

Sem perder a compostura, o causídico dono do restaurante abriu um largo sorriso, abraçou o juiz reclamão e anunciou aos pares ali sentados: “Este é um magistrado de sorte. Recém chegou em nossa cidade e já ganhou um prêmio. Por favor, tragam o fardo de latinhas de cerveja a que fez jus o feliz cliente que encontrou a tampinha no meio do leitão recheado”.

Foi assim que o magistrado ficou sabendo por que o advogado era um dos melhores da cidade.