“O seu nome é Fátima, doutor?”


Onze horas da manhã. O advogado sessentão, defensor da empresa ré, entra na sala de audiências, diz “bom dia” à jovem juíza, a quem estende a mão. Secamente ela retribui gesto e palavras, mas segue sentada.

Em seguida, a magistrada, com os autos em mãos - sabe-se lá com que propósito - pergunta:

- O seu nome é Fátima, doutor?

Há alguns nomes próprios que se prestam a tais confusões, como Darcy, Abigail e Nadir, por exemplo. Entretanto, não se conhece nenhum registro de homem chamado Fátima.

Surpreso com a inesperada indagação, o advogado divaga:

- Se eu fosse Fátima, talvez não estivesse aqui neste foro surpreendente, mas conversando amenidades com os convidados da programação matutina da Rede Globo – a senhora deve conhecer ´O Encontro com Fátima Bernardes´, não é doutora?...

E não fica por aí. Ele mira nos olhos da novel juíza, e produzindo um amigável sorriso, complementa:

- E se eu me chamasse Fátima seria mais bonito! Sou apenas o Carlos, um dos advogados que constam aí na procuração, juntamente a Doutora Fátima, que é minha filha!...

A magistrada fica sem graça, mas não perde a pose e ainda tenta justificar:

- É que quem assinou a contestação foi Fátima...

O advogado arremata com decisiva pitada de ironia:

- A advocacia é assim. Se aceitamos a provocação, nossa atividade fica mais difícil. A nossa paciência se esgota. E a vida perde alguns minutos. Tenho dito!