A sogra, ou a soga?


Por Carlos Alberto Bencke, advogado.

A ação de usucapião ajuizada no foro de cidade próxima ao litoral norte gaúcho se referia a uma pequena de terra, que passou a ser valiosa porque a cidade cresceu para aqueles lados. Casas enormes foram construídas e ficou aquele terreno vago. Alguém se interessou, cresceu o olho e o advogado relatou, na petição inicial, que o autor ocupava a área há tantos anos e que “lá colocava sempre, todos os dias, um animal para pastar”.

Contestada a ação, foi marcada a audiência de instrução, sob a presidência de juíza bem jovem, tipicamente urbana, criada na cidade grande, formada em universidade particular e recém aprovada no concurso.

Começaram a desfilar as testemunhas do autor da ação que tinha de comprovar o uso da área, até que chegou a vez de um índio acostumado às lides campeiras, que também se expressava à moda lá de fora.

Na época usava-se ainda a forma de audiência em que a pergunta era feita ao(à) juiz(a), depois transmitida à testemunha, que respondia e o(a) magistrado(a) reduzia a termo. Em síntese: o juiz ditava para a secretária da audiência com suas palavras o que entendera que dissera a testemunha.

Houve então a inevitável pergunta para o guasca: “O seu fulano usava a área?”.

A resposta positiva do índio veio acompanhada de uma frase que surpreendeu a jovem magistrada: “Ele amarrava o animal pela soga e deixava lá pastando”.

A novel magistrada não conteve o riso, mas rapidamente recompôs-se e perguntou: “Pela sogra?”

Foi preciso a intervenção dos experientes advogados que participavam da audiência para explicar que soga era uma espécie de corda para amarrar animais, termo muito usado no interior gaúcho.