A fama do João Grande


Audiência de uma ação penal, a juíza ouve Abelardo, um homem jovem, trintão, simplório. Ele é acusado de ameaças e ofensas verbais que, supostamente, teria feito à ex-esposa.

O réu desabafa. Salienta não ser capaz de fazer mal a ela; insiste que há um conchavo, entre a ex-mulher e a filha, para prejudicá-lo; comenta que está deprimido por causa das desavenças familiares. E termina dizendo que “ela falava coisas sobre mim e, por isso, eu ficava nervoso, perdia a cabeça, chegando a dar-lhe uns cascudos”.

A juíza instiga o acusado a prosseguir:

- Como assim? Que coisas ela comentava? O que lhe incomodava tanto?

O interrogando avança um pouco:

- A minha ex-mulher vive comentando com pessoas das nossas famílias, e postando nas redes sociais, que eu estou sempre na casa do João Grande.

Imaginando que o mencionado personagem fosse, acaso, alguém da política local, mas querendo certificar-se seguramente, a magistrada questiona:

- Quem é o João Grande?

O interrogando espalma as mãos, coloca-as emparelhadas, distanciadas cerca de 20cm, respira fundo e desabafa:

- Doutora, o João Grande é um cara que tem um pintão deste tamanho... É claro que eu não vivia na casa dele, apenas a gente conversava de vez em quando. Afinal fomos colegas de escola, no segundo grau, época em que ele ganhou esse apelido.

Surpreendida, a magistrada pega um exemplar do Código Penal, vai direto à regra do artigo 215 e lê professoral: “Na redação do depoimento, o juiz deverá cingir-se, tanto quanto possível, às expressões usadas pelos depoentes, reproduzindo fielmente as suas frases”.

E então explica aos presentes:

- No termo da audiência, vou ditar a expressão “pênis grande”. Na mesma assentada, vou explicar o gesto natural feito pelo espontâneo cidadão... – arremata a magistrada.

O defensor público, tentando descontrair, mas praticando um rasgo de inconveniência, sugere:

- Talvez fosse o caso de apelidar o personagem de João P Grande...

A juíza não gosta, olha por cima dos óculos e com secas palavras encerra a audiência:

- Despiciendo, senhoras e senhores! Este é um caso jurídico, nada a ver com sexologia...