Rep├║blica Tupiniquim


Por Antonio Silvestri, advogado (OAB-RS nº 17.672)
asilvestri@terra.com.br

Vejo alguns ministros do STF semeando risinhos irônicos frente aos que tiveram coragem de caçar os piores ladrões da história tupiniquim.

Vejo políticos lutando pelo quanto pior melhor.

Vejo a OAB digladiando para evitar prisão de bandidos, quiçá para seus filiados seguirem faturando generosos cifrões com a lista infindável de recursos.

Vejo o honesto rebaixado a otário e o malandro galgado a gênio.

Vejo a verdade pisoteada e a mentira no andor.

E então, vejo uma lágrima teimosa despencar do meu olho.

Vejo definhar A Justiça Acima da Lei – teoria de Cícero, o maior orador romano do seu tempo, estratégia de defesa do poeta Archia, seu amigo e mestre. Atitude inédita do notável tribuno. Projetada em terreno fértil, ela deslizou pelos desfiladeiros da abismante distância dos tempos sem se deixar esvair nos tempos, acabou por vencer os tempos, e se mantém atual nos presentes tempos.

Mas vejo que a república tupiniquim está por dizimá-la.

Embrenhado neste túnel dos tempos, noto a luz tênue que insiste em seguir lá no final a indicar-me que gasto meu último Pai-Nosso na trilha da esperança que teima em se manter arraigada a essa Via Sacra iniciada há mais de três décadas, quando jurei exercer a advocacia na busca da justiça, coisa que, a par de fazer parte da minhafilosofia de vida, é regra deontológica no nosso Estatuto. 

Mas vejo-a esquecida pela OAB.

A tese de Cícero, de um tempo em que, de tão distante, até o pensamento custa alcançá-la (65 a.C.), continua a me alimentar esta nostalgia melancólica, quiçá alucinógena, de que ainda há juízes em Berlin.

O renomado tribuno, albergado em suficientes premissas, expressou: Si nihil aliud nisi de ciuitate ac lege dicimus, nihil dico amplius; causa dicta est.

Mas na república tupiniquim, vejo-me expropriado da teoria de Cícero. Por isso, resolvi recolher-me à quinta parte do pó da essência da minha insignificância e viver só no meu mundo. No meu mundo onde tenho sonhos, tantos sonhos com tantas coisas, essas coisas que não se conhecem na república tupiniquim.

O assassinato da teoria de Cícero, aqui neste meu país, rouba-me o gosto pela vida em sociedade. Sendo solitário, não sinto solidão. Mas, quando em meio a essa multidão invertendo valores, vendo o vazio dos que me cercam, acabo tragado por esse abismo e escorrego às profundezas da solidão. Os que convivem comigo não me entendem.

Eles não sabem que estar em solidão não é estar sozinho; é estar acompanhado do vazio dos que se dizem cheios.

No meu mundo solitário, mantenho-me esperançoso de alguma luz ainda derramar sobre a república tupiniquim. Na minha estrada, que já vai longa e se faz marcada por urzes e cardos, acabei por me adaptar a ela. E ainda que decidisse por deixar morrer a esperança de um dia desfrutar do privilégio de ver-me a assistir à minha Corte

Suprema comportar-se à moda dos Juízes de Berlin, mirando a Justiça Acima da Lei, ladeando interesses pessoais e pensando só no meu país, não me seria dado esse direito. Afinal, o direito de morrer por último não é meu; é da esperança! Logo, enquanto eu viver, forçoso me é mantê-la. Não por convicção; por obrigação!