Dentadura macabra


Por Carlos Alberto Bencke, advogado (OAB-RS nº 7.968)

Os irmãos – filhos de um conhecido comerciante, famoso por seu bigode à portuguesa – divergiam à beira do leito de morte do pai. É que o médico havia decretado: “O pai de vocês não passa de amanhã”.

Um dos filhos queria comprar já o caixão para, seguindo os ensinamentos paternos, pechinchar e conseguir melhor preço. O outro, esperançoso, não queria agourar o também supersticioso pai.

Pois o moribundo passou o dia posterior, o outro, mais uma semana e o médico resolveu dar alta ao paciente.

Antes de ser levado de volta à residência, o idoso pediu a dentadura completa que deixara sobre a mesinha de cabeceira que separava os dois leitos do quarto coletivo do hospital. Não foi encontrada. Procura daqui, procura dali, a enfermagem informou que, na véspera, falecera o vizinho do leito, “tendo a viúva levado uma dentadura que seria do defunto, para colocar nele”.

Duas semanas depois, o sumiço dentário virou caso no Juizado Especial da comarca. O idoso e os filhos eram autores de uma insólita ação contra o hospital e a família do morto: cobravam dos réus, solidariamente, o valor da dentadura e uma reparação por danos morais.

O alquebrado juiz - recusante de promoção porque se habituara àquela vidinha interiorana fórum-casa-fórum – abriu a audiência com cara de poucos amigos:

- Qual é o problema aqui?

- Enquanto eu estava pra ir desta vida, a família do falecido levou minha dentadura completa. Não tenho dinheiro para comprar outra – respondeu o idoso senhor.

- O que a família aqui representada tem a dizer? – perguntou o magistrado.

O advogado, filho do falecido, se puxou na explicação:

- A subtração de objeto, pensando ser seu, por erro quanto à coisa, é excludente de crime e de indenização cível quando comprovados o erro e a boa-fé, e devolvido o objeto.

E, empertigado, tirou da pasta um pote de vidro contendo – imersa em álcool - a dentadura controvertida:

- Senhor juiz, a subtração por engano ocorreu num momento de dor para a nossa família. Mas, reparando o equívoco, fomos ao cemitério buscar o objeto para devolvê-lo ao senhor aqui presente.

O juiz encerrou a audiência. Conta-se que o autor teria voltado a usar a dentadura macabra, porque - sovina como ele só - todos na comarca duvidam que ele tenha adquirido uma outra nova.