O Dominador e a Submissa


A ação judicial é de uma consumidora contra uma seguradora, questionando a negativa, pela ré, do reembolso do valor de um moderno celular (segurado) que fora roubado numa – lamentavelmente rotineira – ocorrência no centro da cidade de 600 mil habitantes.

Na hora de juntar as cópias de documentos, o advogado da autora embaralha-se: anexa também um contrato entre "o Dominador e a Submissa" (com as iniciais em maiúsculas...).

O ajuste – assinado em 7 de outubro de 2019 - define na cláusula primeira que “o propósito fundamental é permitir à Submissa explorar de maneira segura sua sensualidade, respeitando e considerando devidamente suas necessidades, seus limites e seu bem-estar".

O contrato é experimental (três meses), podendo ser prorrogado, com manutenção ou aperfeiçoamento dos termos, desde que a Submissa e Dominador estejam interessados na continuidade. Consta que “ela oferecerá sem questionar ou hesitar o prazer que ele solicitar e aceitará sem questionar o treinamento, a orientação e a disciplina do Dominador na forma que for".

O ajuste foi firmado sem testemunhas instrumentais – por “se tratarem, os signatários, de pessoas adultas e capazes”.

Pelo contrato, a Submissa estará disponível para o Dominador das 20h. das sextas-feiras até as 18h. dos domingos. Todos os custos de viagens incorridos pela mulher para o propósito da convivência serão cobertos pelo primeiro contratante (advogado).

Mais: durante os períodos de convivência, o Dominador exige ser chamado de "Senhor Grey". Lembram? – ele é o protagonista do romance "50 Tons de Cinza". O livro que foi best-seller em 2011 em mais de 20 países, retrata Anastasia Steele, uma virgem de 21 anos que cursava a Faculdade de Literatura. Após entrevistar o magnata Christian Grey para o jornal da faculdade, ela passa a ter um relacionamento com ele. A trama desenrola-se em Seattle (EUA). Em meio ao luxo, Anastasia descobre o mundo do sadomasoquismo.

(A propósito, mais detalhes sobre o livro estão nesta mesma edição do Espaço Vital, em 123 Já!)

Voltando, ao caso judicial brasileiro: conforme outra cláusula, “o Dominador pode açoitar, espancar, chicotear ou castigar fisicamente a Submissa como julgar apropriado, para fins de disciplina, para seu prazer pessoal, ou por qualquer outra razão, a qual não é obrigado a explicar". A seu turno, “a Submissa fica proibida de olhar diretamente nos olhos do dominador salvo quando especificamente instruída a fazê-lo".

Diante da insólita juntada de contrato que nada tem a ver com o roubo do celular, o juiz determinou que “o patrono da parte supostamente lesada com o roubo do celular proceda com a retirada do documento que consta no ID. 27286945, eis que estranho aos autos".

O caso é mato-grossense. Mesmo com a ocorrência do recesso de 20 de dezembro a 20 de janeiro, o insólito fez furor em horas extras das transmissões da “rádio-corredor” do Foro de Cuiabá. Cautelosa, para evitar a quebra de sigilo bancário, a “emissora” esquivou-se num ponto: não revelou qual a cifra financeira mensal que o letrado “Dominador” depositaria antecipadamente – e depois em parcelas - na conta da patética “Submissa”.

A Comissão do Direito da Mulher da OAB de Mato Grosso informou que “está apurando o caso”. Certamente com vigor e profundidade...

Leia nesta edição do Espaço Vital

Os prazeres violentos revelados em 50 Tons de Cinza