Enrolados na toga


Um diferenciado senador da República – nada que o ligasse ao estilo Renan, Jucá ou Eunício - é arrolado como testemunha em uma ação, numa comarca integrante de uma região administrativa do Distrito Federal, a menos de 30 km do Eixo Monumental dos Três Poderes, em Brasília. A juíza liga à assessoria do político para que ele marque dia e hora para a oitiva em seu gabinete, como manda a prerrogativa.

A resposta é gentil: “O douto senador faz questão de ir pessoalmente ao fórum, prestar seu depoimento, aceitando a data da pauta forense”.

“Hmmm, que sucesso...” – pensa a jovem magistrada. No dia e hora e aprazados, ela é informada – com meia hora de antecedência - de que “o senador já está a caminho e chegará um pouco antes do horário aprazado”.

A juíza veste a toga, prepara-se para o grande momento, avisa a ´entourage´ de que aguardará sentada e que se levantará para cumprimentar o senador imediatamente após a entrada dele na sala de audiências. Tudo é protocolarmente ensaiado.

O senador chega, a magistrada se levanta, estende a mão e – que zebra! – percebe que a toga comprida está enganchada na rodinha da cadeira. Uma, duas, três, quatro tentativas de desprender-se do incômodo, o senador se oferece para

ajudar. Vai para trás da cátedra, puxa forte – tão forte que não só a toga desfaz-se da rodinha, como a juíza e aquele respeitável senhor político vão ao chão, embrulhados na toga, com a cadeira magistral tombada quase sobre os dois.

Com forças redobradas, a magistrada firma o quadril e consegue levantar-se, ajudando o provecto político a se colocar de pé também. Posturas corrigidas, assessores perguntando se “está tudo bem?”, a servente chega oferecendo água. A magistrada ajeita os longos e lindos cabelos que haviam se embaralhado. Tudo resolvido.

Protocolo retomado, o depoimento do senador ocorre sem problemas. O termo é assinado, a magistrada agradece e se desculpa pelo “desagradável imprevisto”.

Então, querendo ser agradável, o político pronuncia uma frase constrangedora: “Doutora, jamais vou me esquecer de ter me enrolado, com a senhora, nas sedas pretas desta macia toga”...