O beijo do professor e a formatura roubada


As audiências permitem o desfile de situações da vida, porém nunca enfrentadas.

De um lado da mesa, um jovem professor universitário e do outro, uma instituição de ensino superior. Dentre os alegados descumprimentos pelo empregador, a busca pela reversão da “justa causa” que extinguiu o contrato como punição disciplinar.

A acusação dizia com o fato de o mestre ter sido flagrado beijando um aluno no banheiro da faculdade. No processo, uma contundente denúncia ao Ministério Público do Trabalho. Nela, como na ação, afirmava o docente que o ato do empregador era preconceituoso e homofóbico.

Em um exercício imaginário de substituição dos envolvidos, indagava-se: se fosse um casal heterossexual, ou de mulheres, a reação teria sido a mesma?

Em síntese, o banheiro da faculdade seria ou não o local adequado para troca de beijos, independentemente da condição sexual de professores, alunos, funcionários e visitantes.

Mantido judicialmente o ato do empregador, adotou-se a premissa de que o professor não poderia ter utilizado o banheiro para beijar quem quer que fosse, homem, mulher ou até mesmo um ET.

Mas o marcante no episódio foi a desviada compreensão do professor, do seu advogado e do representante do Ministério Público. Invocaram na prática, uma espécie de imunidade comportamental decorrente da condição do acusado, como verdadeira e ilimitada preliminar permissiva.

A liberdade e o respeito são antídotos ao preconceito de qualquer natureza.

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O que cada vez mais chama a atenção é a intensificação da cultura da imunidade, ou de auto concessão permissiva. Ela dificulta a definição dos limites mutuamente toleráveis, seja com relação a ação ou à reação.

Não faz muito, nos surpreendemos com o grotesco espetáculo do roubo da cena de uma formatura. Um formando transformou a solenidade em um verdadeiro Cassino do Chacrinha, dela apropriando-se e impondo irrecorrivelmente a sua visão de mundo aos demais participantes.

A colação de grau pertencia a todos, sendo solene e formal para muitos. Sem respeitar a diversidade das compreensões, usurpando-a como palco, praticou aos olhos de todos a “dança da bundinha”. No dizer atual, causou.

Foi a colação de grau por ele permitida aos demais bacharéis em Relações Internacionais e seus familiares. Egoisticamente, indevidamente e inadequadamente, escudado pela sua pretensa condição e no temor de muitos ao exercício da crítica, pôs em curso o grotesco espetáculo.

Bem, se a conclusão for a de que a colação de grau deixou de ser uma solenidade coletiva, dando lugar ao individualismo impositivo de condutas, no intuito maior de desconsiderá-la, que seja suprimida, extinta.

É difícil imaginar que um sujeito que tem a sua formação em universidade pública, portanto patrocinado pelos recursos do povo, marque a sua passagem por ela como usurpador do momento derradeiro.

O mais chocante foi verificar que alguns integrantes da mesa aplaudiram em pé o inusitado.

A condição sexual não encapsula ninguém e não pode gerar imunidades. Se o ato praticado é reprovável não pela condição do agente, mas pelo seu conteúdo - deve sim ser reprimido.