Os beijos que a juĂ­za enviou


Assim que entrou na magistratura, e lá se vão dez anos, de vez em quando, a juíza lançava um ou outro despacho a mão.

Em um desses, apôs sua decisão caligrafada, tentando caprichar na letra, que já naquela época andava enferrujada pelo parco uso – afinal, quase tudo era escrito apenas por meio do teclado do computador.

A magistrada foi escrevendo, escrevendo, escrevendo e se distraiu. Ao final, em vez do clássico “intime-se”, por engano lascou “Beijos, Daniela”.

Os autos foram ao cartório e o desligado escrevente tratou de, meia dúzia de dias depois, publicar na nota de expediente a íntegra do despacho, incluindo o final afetivo.

No mesmo dia da publicação, os advogados das duas partes protocolaram uma petição conjunta: “Eminente juíza, o beijo é a ação e o resultado de tocar os lábios, com leve sucção, em sinal de estima, amor, carinho, respeito etc. Nos beijos apaixonados entre pessoas, geralmente as bocas se tocam e se trocam carícias com os lábios. Beijo também é a fórmula carinhosa e íntima de encerramento de carta, bilhete etc. “

A petição em folha A-4 tinha, na sequência, um espaço em branco, e logo a conclusão: “Imaginando que o arremate do despacho de fl. 86 esteja revestido de humano equívoco, mas também admitindo possa ter sido uma fórmula processual carinhosa de arremate, as partes pedem que Vossa Excelência melhor explicite, para que não pairem dúvidas na eternidade dos autos”.

Há quem diga, na vara, que a juíza enrubesceu com a petição. Mas, para evitar novos desdobramentos, ela despachou com concisão: “Recebo a petição conjunta como embargos de declaração. Acolho-os para afirmar ter se tratado de erro material. E arremato com o meu profissional respeito pelos dois advogados. Nada mais”.

A “rádio-corredor” se encarregou de, por conta própria, divulgar um comentário adicional: “Sem beijos e sem abraços”...