Cabelos molhados


Por Bernadete Kurtz, advogada (OAB-RS nº 6.937).

Os tititis forenses andavam a mil, em comarca da Grande Porto Alegre. Dois juízes apaixonados; um pela linda promotora loira natural; o outro pela servidora loira mal tingida... A paixão era concreta e vista por todos.

À unanimidade era entendida a paixão do jovem magistrado pela jovem promotora, bonita, miudinha, simpática, sorridente (ah, as aparências é que regem o mundo). Mas ninguém entendia a paixão do outro jovem juiz pela não tão jovem servidora (ah, os preconceitos...) .

A rádio-corredor forense propagava que os dois casais frequentavam - em apartamentos distintos, claro - o mesmo motel. Uma tarde, 14h., a advogada Maria Antônia está sentada no hall, esperando a audiência aprazada para as 13h30 e nada de haver o pregão. Ela não estava apressada, pois sua principal testemunha ainda não chegara.

Em torno das 14h30 entram juntos os dois jovens juízes, a jovem promotora e a não tão jovem servidora. Todos com os cabelos molhados, ingressam em suas respectivas salas e, em seguida, há o pregão da audiência.

Nesta, a mesa do juiz está colocada num estrado, num plano mais alto , ficando os advogados e partes olhando para o “olimpo”. A promotora - lindinha, loira, simpática e sorridente - sentada ao lado do magistrado, a cadeira também sobre o estrado.

Iniciada a audiência, nos depoimentos pessoais tudo normal. A troca de olhares candentes entre juiz e promotora é notória - afinal o amor é lindo - pensa Maria Antônia, até enternecida, olhando os jovens enamorados com os cabelinhos pingando água.

De repente, o inusitado. A promotora começa a cochichar no ouvido do juiz, e a cada sussurro, ele formula uma pergunta para a testemunha! Três cochichos, três perguntas e assim vai...

Esgotadas as perguntas da promotoria, o magistrado dá a palavra à advogada Maria Antônia. Ela se põe em pé, em seu lugar, olhando para o juiz, que aparenta espanto.

- Doutora, a senhora está com a palavra. Não tem perguntas ?

- Tenho sim. Apenas estou esperando...

- Esperando o quê, doutora?

- Que o senhor me empreste uma de suas orelhas, para eu poder cochichar as minhas perguntas... E para isso, preciso chegar mais perto.

- O que é isso, doutora? Não estou entendendo sua postura!

O juiz enrubesce, falseia na voz, depois decide vigoroso:

- Audiência adiada sine die.

E se retira da sala, seguido pela promotora lindinha.

Ufa, a advogada Maria Antônia conseguira o intento: adiar a audiência, pois a principal testemunha dela – embora intimada - não comparecera.

O amor é lindo! Mesmo com os cabelos molhados e os imprevistos.