O aniversário da namorada do ministro


Por Carlos Alberto Bencke, advogado (OAB-RS nº 7.968)

O ministro aquele, sempre pronto a novas conquistas, estava de caso com uma linda advogada que, meses antes, participara de uma audiência, ali surgindo o convite para um futuro encontro fora da Corte.

O romance começou e seguiu e, passado algum tempo, o casal uma viagem a Nova Iorque para comemorar o aniversário dela em famosíssimo restaurante na Big Apple, daqueles que têm agendamentos e está lotado até para o ano seguinte. Mas, o ministro não fez reserva, confiante no seu alto cargo que, por certo, lhe daria prerrogativas inimagináveis.

Lá chegando, o formal maitre logo perguntou:

O senhor tem reserva?

Sim, tenho. Meu nome é ´José da Silva´. Eu sou ministro da mais alta Corte do meu país - e comprovo essa minha impoluta condição mediante a apresentação da identidade funcional, ademais exibida, agora também, junto com o meu passaporte diplomático. Cientifico-os de que aqui vim comemorar o aniversário da minha namorada.

Na consulta às anotações, o maitre não encontrou reserva. Comunicou ao ministro que, enfurecido, lá no seu íntimo, pensou: “Esse maitre está acostumado com quem não mente e vai acreditar em mim”. Sustentou então que “isto é um absurdo, a reserva foi feita há mais de um ano, exijo a mesa, etc.”

Os clientes presentes olhavam para a porta de entrada onde se formara o embrulho.

O maitre consultou o gerente, que consultou o diretor, que consultou... que consultou... e todos chegaram a uma conclusão: realmente teria havido uma falha. Daí porque dariam ao cliente e sua namorada uma mesa colocada em lugar estratégico, bem à vista de todos, para mostrar que estavam corrigindo um erro que consideravam monumental.

Afinal, se alguém nos Estados Unidos diz algo, aquilo é verdadeiro.

O ministro e sua encantadora namorada jantaram, brindaram com champanhe francesa, vinho finíssimo e caro - e saíram, ele triunfante olhando com desdém o maitre, e após ter pago a conta de mais de mil dólares.

A namorada, ao contrário, estava roxa de vergonha. A ponto de perder, ali mesmo, o estímulo do namoro quando, depois daqueles vários cálices, o alegre e romântico ministro cantarolou em inglês, no ouvido dela, versos de sofreguidão:

“O amor quando acontece /
A gente esquece logo /
Que sofreu um dia...”

Uma semana depois, a rádio-corredor informou secamente: “Na volta ao país de origem, a namorada dispensou o ministro”.