O velho Malthus


Por José Carlos Teixeira Giorgis, desembargador aposentado do TJRS

O isolamento social destes dias desperta lição de passado magistério em que o noviço tartamudeava lições sobre as doutrinas econômicas. E, como se o neurônio trovejasse, logo cintila no palco a lembrança da teoria maltusiana.

Em tempos de iluminismo o clérigo Thomas Robert Malthus, observando descompasso na época (1798) entre a existência de alimentos e a taxa dos nascidos, constata que a população cresce em progressão geométrica, enquanto a quantidade dos primeiros aumenta apenas em progressão aritmética.

O desequilíbrio levaria ao colapso em vista do crescimento sem freios dos povos e a oferta possível de mantimentos.

Anote-se que o escritor se baseava em momentos da Revolução Industrial, em que começavam a melhorar as condições sanitárias e a significativa produção de insumos agrícolas.

O desastre ainda não se dera, segundo ele, porque determinados acontecimentos como as guerras, as pestes e as doenças se encarregavam de defenestrar os excessos da balança, mantendo sob controle a estabilidade vital.

Malthus propugna medidas para a solução do problema: retardar-se ao casamento; incentivar a castidade; e aconselhar o casal a ter apenas os filhos que pudessem sustentar.

Atualmente a melhoria das condições sanitárias e as políticas de saúde, o progresso da medicina, as campanhas de controle da natalidade desmerecem alguns postulados do religioso britânico.

Todavia, quando se está incluído em grupos de risco e se procura observar as severas regras de salvação contra a supremacia do vírus, fica-se a lamentar a conduta de alguns que têm uma “visão maltusiana” a respeito dos idosos, considerando-os, talvez inconscientemente, como o grupo que deve desaparecer para que se mantenha o “padrão eugênico” da raça; ou porque já estão, tecnicamente, nas vizinhanças da eternidade.

Não se desconheça, ainda, que não se chegou ao momento da seleção de leitos e dos aparelhos raros, onde a equipe dos provectos já entra perdendo de goleada, pois a regra é clara: primeiro os outros.

É o ressurgimento do velho darwinismo. Agora, bioético.