Internacional x Estudiantes - 2010


Recebi um vídeo com uma entrevista recente do Jorge Fossati, treinador do Internacional na campanha do bi da Libertadores de 2010. Um grande sujeito!

Repetiu a cogitação que já havia me confidenciado: que a sua inesperada demissão, em plena campanha vitoriosa, poderia ter sido fruto de uma espécie de conspiração por parte dos treinadores brasileiros. Reserva de mercado.

Em meio as ponderações e recordações, vem à baila a partida contra o Estudiantes (13.05.2010), o que me iluminou a memória permitindo recordar com detalhes as circunstâncias daquela disputa.

Havíamos vencido os argentinos no Beira-Rio, por 1 X 0 e passar novamente pelo Estudiantes nos levaria às quartas de finais.

Chegamos em Buenos Aires acompanhados da apreensão e do nervosismo, próprios a um confronto difícil. Eu tinha me criado ouvindo que o pior dos times argentinos representa sempre um enorme perigo, especialmente quando jogando em casa. É incrível, mas para o dirigente, ao menos os sérios, tanto faz os atrativos da cidade do jogo.

Cercado pela ansiedade, não tive a mínima vontade de sair do hotel. Confinado no quarto, indo no máximo até o saguão, a impressão era de que o tempo se arrastava até o momento do jogo.

Buenos Aires continuava sendo a mesma. Tenho uma memória olfativa que associa cheiros a locais, na oportunidade nem isso funcionou, embora a capital portenha possua para mim um cheiro característico. Naquela ocasião, diante do nervosismo, nada despertava o meu desejo, nem mesmo de caminhar pelas ruas da encantadora Recoleta.

O jogo foi em Quilmes, na Grande Buenos Aires, uma cidade de indústrias e de trabalhadores. O ônibus que conduziu a delegação estacionou ao lado do acesso ao local para nós reservado. Providencialmente cabines separadas do setor de cadeiras, separado por uma abertura guarnecida por um vidro.

Foi um jogo difícil e repleto de incidentes. Houve briga, soco no goleiro Lauro que estava no banco, discussão e o placar alargado, com dois gols em favor do adversário. Os torcedores estavam enlouquecidos. O Inter daria adeus à Libertadores, após uma caminhada de muita luta.

É difícil conter a emoção perante a enorme frustração que me dominava. Saí da cabine, esta cercada de policiais, passando por eles que, àquela altura, riam. Empurrei uma roleta indo sozinho para o interior do ônibus.

Faltavam quatro minutos para o fim da partida. O estádio estava tomado pela fumaça dos sinalizadores que comemoravam a eliminação do Internacional. Era uma noite sem vento e a bruma produzida permaneceu no gramado.

Inesperadamente uma gritaria dos torcedores. Imaginei que seria o terceiro gol do Estudiantes. Estico o olhar e vejo um colorado bradando, pulando e chorando.

Saio do ônibus, passo correndo pelos policiais gritando “elogios” e, outra vez atropelo a pobre catraca. Ao ingressar na cabine, abraços, choro e gritaria.

Em segundos o pessoal que estava nas cadeiras, olha para onde estávamos, avança como uma onda e passam a soquear o vidro. Ele suportou bravamente a situação. Se estourasse seria trágico para todos. Conto isso pois acredito que muito daquela campanha, repleta de lances de superação, deveu-se a tenacidade e combatividade do professor Fossati.

O Giuliano, o herói do jogo, aquele que não perdoou na fumaça, marcou um gol histórico.

Obrigado professor Fossati! Obrigado Giuliano, predestinado que entrou no time ao final do jogo para definir o avanço do Inter naquela Libertadores.

Dez anos de um grande passo.