As sutilezas do significado


Como já vimos, o significado das palavras não é permanente, pois acompanha variados contextos que levam em conta a evolução do homem, da sociedade e da cultura como um todo. O que se aborda desta vez é resultado de provocação do criador e mantenedor desta página, Marco Antonio Birnfeld. 
Disse-me ter aprendido desde o ensino básico - e também nas aulas de Processo Civil do saudoso professor Hermann de Carvalho Roenick, na Faculdade de Direito da PUC-RS, anos 70 - sobre a diferença de sentido entre mandar e enviar. Que se deveria enviar ou remeter, e não mandar, a correspondência, e que quem manda é o general, o juiz, o que dá ordens. Aplicando-se isso às mensagens eletrônicas de hoje, os e-mails, que estes deveriam ser enviados, e não mandados, como frequentemente se usa.

Em termos gerais, dentro do rigor da origem e da precisão do significado dessas palavras, tem razão Marco Antonio. Os textos administrativos, técnicos e argumentativos, como é o caso da linguagem jurídica, têm na precisão do significado uma de suas características essenciais. Em textos mais soltos, como os literários, por serem mais coloquiais e sujeitos às influências de contextos populares, a tendência é a utilização de formas menos precisas, situação em que os significados de diferentes palavras vão se aproximando, chegando ao ponto de se tornarem sinônimas. É o caso de mandar e enviar. Este último verbo parece ser formal demais para ser usado em linguagem coloquial, tendo seu lugar tomado pelo primeiro em situações em que isso não se admitia antes; resultado: hoje mais mandam do que enviam e-mail

Isso se repete com muitas outras palavras. Sabemos todos, por exemplo, que furto e roubo expressam conceitos diferentes nas linguagens policiais e jurídicas, mas na linguagem coloquial essa diferença não existe, sendo usados como sinônimos.

Esse tipo de sutileza na formação do significado das palavras é presente também nos verbos dizer, falar, afirmar e informar. Dizer e falar são formas usadas para afirmar e informar. Para afirmar e informar pode-se usar a fala e a escrita, mas não para dizer e, muito menos, para falar, em que se usa apenas a forma oral. Na linguagem coloquial, essas diferenças tendem a diminuir e em alguns meios e situações até mesmo a desaparecer.

Outro exemplo definitivo da presença das sutilezas na formação do significado está na palavra mandachuva, formada pelo verbo mandar e pelo substantivo chuva. Se a língua portuguesa fosse ciência exata, essa formação não teria qualquer lógica, a não ser que se baseasse na crença de que é São Pedro que nos manda a chuva. No entanto, na linguagem figurada, da pragmática, conclui-se que o chefe goza de amplos poderes, a ponto de poder mandar chuva.

Desafio os leitores a apresentarem outros casos de palavras em que ocorreu a participação de alguma sutileza na formação do significado.