Plantão médico-advocatício


De sexta para sábado, plena madrugada já friazinha de março de 2020 - uma semana antes da deflagração da pandemia - a recepcionista da clínica 24 horas chama o médico plantonista. Um visitante, falando enrolado, vestes desgrenhadas, jeito ressacado, logo pergunta:

- Qual o preço para uma remoção de ambulância ao bairro Jardim Botânico?

- A secretária verá isto. Dependerá da medicação a prescrever e dos equipamentos necessários ao seguro transporte do paciente - responde o médico.

Logo o visitante pede “um diálogo reservado”. Os dois passam ao consultório.

- Será necessária uma simples remoção de ambulância, nada complicado, apenas uma cânula de soro na veia, sem respirador - informa o visitante.

- Onde está o paciente?

- Sou eu mesmo! O senhor é o médico, eu sou o cliente da clínica. É aqui que começa o relacionamento ético e sigiloso com o paciente. Eu confesso que saí ontem à noite, para o jantar de aniversário do presidente da empresa em que presto assessoria jurídica. Conheci uma mulher maravilhosa, conversa daqui, chamego dali, fomos a um motel. Depois das profundidades, pegamos no sono...

- Sim, e daí?

- Agora, duas horas da madruga, para chegar em casa numa boa, só de ambulância, porque minha mulher é uma fera...

Preço exato ajustado, meia dúzia de minutos depois parte a ambulância. Nela o motorista, o enfermeiro, e o advogado deitado na maca. O destino é uma rua pequena, zona aprazível, onde a única casa com luzes acesas é o domicílio do paciente. São 2h25. O barulho atípico alerta a esposa, que sai porta afora.

- Meu Deus, o que houve?

Em seguida, a senhora cônjuge fica sabendo que, após o tal jantar e - “tendo se excedido na bebida, como decorrência talvez de um quadro de estresse simultâneo a uma indisposição estomacal” - o marido fora levado à clínica por volta das 23h, lá permanecendo em observação.

Chorando e esbaforida, a senhora agradece a Deus e aos valorosos profissionais da saúde. Para evitar uma eventual contradição, o inteligente esposo trata de abreviar:

- Amor, chega de estresse, a hora agora é de calma. Pega logo o teu cartão, paga os moços, e vamos dormir...