Doces amores grenalizados


Por Carlos Alberto Bencke, advogado (OAB/RS nº 7.968)

Advogado, bem apessoado, cinquentão, sem preocupações com as contas no fim do mês, pai amoroso de um casal de adolescentes e coloradíssimo resolve consultar um saite especializado em buscar doces relacionamentos sem compromisso. A “agência” - digamos assim - garante.

As adocicadas meninas gostam deste tipo de homens: eles têm vida estável, amam seus filhos, querem manter o lar doce lar com a esposa comportada. Mais: tais homens têm contas bancárias ´PJ´  que permitem manter um açucarado relacionamento mais jovem. Bom negócio para ele e para ela, selecionada por suas fotos no saite: loira, alta, cabelos em cachos, olhos profundamente verdes e o corpo... bem, o corpo nem se fala. Parecia saído da academia há dois minutos. Linda, seu nome, e linda ela era.

Acertado o preço mensal, alugado o apart-hotel, os encontros eram frequentes, manhã, tarde ou noite de qualquer dia e até sábados ou domingos quando tinha jogo do Inter. Ele estava satisfeitíssimo com os serviços prestados por ela. E pagava tudo religiosamente, como aconselhava o acordo entre eles.

Uma quarta-feira à noite, após o jantar à luz de velas, sentaram-se na frente do televisor para assistir o Gre-Nal. De repente, a dócil e melosa Linda deixa escapar um huuuuu quando um jogador do Grêmio perde um gol; ele desconfia. Em seguida, também escapa um q... m... quando o jogador do Inter quase faz o gol. E ele mais desconfiado ainda.

E quando o gol do Grêmio acontece, ela salta do sofá e vibra intensamente. Até sapeca um beijo no companheiro, mas ele está quieto, sem reação. Nem espera o fim do jogo e vai embora.

Nunca mais apareceu no apart-hotel, nem pagou as contas, nem o aluguel, nem o salário de Linda, sua linda companhia contratual que bons serviços lhe prestara. Daí para a cobrança no Juizado Especial Cível foi um passo.

Na audiência, ele - em causa própria - não diz uma palavra. Ela, exuberante, pernas sedosas cruzadas. O juiz leigo olha para aquele monumento de mulher e pergunta:

- Doutor, posso saber qual a razão para o senhor deixar de pagá-la pelos serviços prestados?

- Não tem problema lhe contar: esta moça é gre-mis-ta - diz separando as sílabas para enfatizar. Não posso conviver com uma gremista, mesmo que faça jus ao nome e seja linda, muito linda. Quanto eu tenho que pagar?”

E pagou ali mesmo, na hora. O processo foi arquivado.

Uns dias depois a rádio-corredor da OAB analisou sobriamente: “A rivalidade Gre-Nal atrapalha, às vezes, até mesmo os mais doces casos de amores clandestinos”.

E não se fala mais nisso.