O constrangedor erro erótico do “copia/cola”


O “Maior Cola/Copia do TJRS” - aqui revelado na sexta-feira passada - trouxe à recordação um acontecimento parecido, de março de 2017, em uma altaneira corte brasileira. Era um processo volumoso, antigo e complicado, de rescisão contratual de representação comercial. O estagiário tinha posto os volumes em ordem e pulverizara álcool 70 para eliminar os ácaros. A sentença não satisfizera as duas partes.

Em grau de apelação, o assessor recebeu os memoriais e se pôs-se a lê-los, antes de minutar o projeto de voto, que submeteria à leitura minuciosa e à aprovação do douto desembargador.

De repente, os olhos do assessor se arregalaram. Em meio ao item 7, iniciado por grandes digressões jurídicas, havia um trecho surpreendente: “Ter relações na parte da manhã impulsiona tanto o nosso estado de espírito como o nosso sistema imunológico”.

E por oito parágrafos densos seguiram-se revelações mais pertinentes a um livro de Sexologia, do que a uma peça dita jurídica.

O assessor resolveu exibir ao magistrado. E entre frases insinuantes (que talvez pudessem ser 69 – ninguém se deu ao trabalho de contar...) os dois leram preciosidades, neste padrão: “A Revista Lifestyle Mirror recentemente publicou que o sexo regular aumenta o fluxo sanguíneo e diminui os hormônios do estresse no organismo, que causam estragos na pele” (...) “De acordo com a US National Library of Medicine, as pessoas que fazem mais sexo possuem pressão arterial muito mais baixa”.

E por aí se ia.

Até que uma frase foi mais reveladora: “Minha amada... (seguia-se um nome feminino), de acordo com a Revista Women's Health, a estimulação vaginal pode aliviar dores crônicas nas costas, dores nas pernas, dores de cabeça e enxaquecas”.

O magistrado orientou o assessor a que ligasse ao advogado pessoalmente, resumindo a surpresa, para sugerir-lhe que - querendo - requeresse que, “para sanar erro de copia/cola, fossem tarjadas de preto todas as frases e expressões equivocadamente postas e que refogem ao debate jurídico”.

A petição deveria ser levada em mãos diretamente na câmara cível, para evitar escorregões e vazamentos protocolares.

O advogado agradeceu, desculpou-se, digitou rápido e em menos de uma hora chegou ao TJ, onde foi recebido pelo desembargador numa das salas de sessões (vazia), convenientemente sem terceiros intrusos.

O anfitrião foi educado (“Essas coisas acontecem”) e sintético ao despachar a petição: “Junte-se. Defiro. Tarje-se”.

Três minutos depois, agradecido, o advogado saiu vermelho e suado, mas aliviado. Tudo o que fora capaz de ruborizá-lo estava definitivamente encoberto por espessa tinta preta.

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